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quinta-feira, 6 de junho de 2013

Como estudantes ajudaram a reescrever a história da morte de militante gaúcho morto na ditadura.

 


Como estudantes ajudaram a reescrever a história da morte de militante gaúcho morto na ditadura
Militante de esquerda, cuja morte havia sido tratada como suicídio, pode ter sido assassinado em um caso semelhante ao do jornalista Vladimir Herzog. A reportagem é do Zero Hora

Sob o número 174/73, o inquérito de capa verde com letras batidas à máquina poderia ser apenas mais um entre os mais de 13 milhões de processos acumulados no Arquivo Judicial do Estado.

Não é. Esquecido desde a década de 1970 nas prateleiras do acervo, o documento localizado por dois estudantes de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) trouxe à tona indícios de mais um "falso suicídio" cometido durante a ditadura militar - à semelhança do que ocorreu com o jornalista Vladimir Herzog, que, na história contada pela ditadura, teria se enforcado.

O caso - publicado ontem em reportagem do jornal O Globo - ocorreu em 22 de abril de 1970, portanto, antes da morte de Herzog, quando o ex-taxista e militante do grupo M3G (Marx, Mao, Marighella e Guevara) Ângelo Cardoso da Silva, então com 26 anos, foi encontrado morto na cela número 38 do Presídio Central de Porto Alegre. Ele teria, segundo a versão oficial, atentado contra a própria vida, ao se enforcar com a ajuda de um lençol. Não mereceu mais do que notas nos principais jornais da época.

A versão do suicídio agora é alvo da Comissão da Verdade. Passou a ser contestada com maior propriedade desde outubro de 2011, quando o estudante Davi dos Santos, 24 anos, encontrou o inquérito em meio a milhares de papéis guardados pelo Tribunal de Justiça.

À época, Santos era estagiário da equipe responsável por analisar o acervo - que vem sendo reestruturado - e determinar quais documentos deveriam ser preservados e quais poderiam ser descartados. Em uma de suas pesquisas, localizou a pasta com a identificação de Ângelo. Ao deparar com 11 fotos do suposto suicídio, percebeu que tinha algo valioso em mãos.

- Primeiro, tive um ataque de riso, porque eu sabia que era uma descoberta importante do ponto de vista histórico. Depois, comecei a chorar. Era só olhar para perceber que havia algo errado ali - conta o aluno da UFRGS.

Naquela mesma tarde, Santos procurou a colega Graziane Ortiz Righi, 28 anos, que também integrava o grupo, para dividir o achado. As imagens evidenciavam o fato de que o corpo de Ângelo estava ajoelhado.

Também indicavam que a janela da cela, onde havia sido amarrado o lençol, não ficava a mais de 1,30 metro do solo.

Análise de legista aponta falhas
Deteriorado pela ação do tempo, o inquérito foi restaurado pela historiadora Nelda Pereira de Oliveira, 68 anos, chefe do Núcleo de Arquivo Permanente do acervo judiciário, e guardado com cuidado. Dias depois, passou pelo crivo do professor Enrique Serra Padrós, da UFRGS, e chegou ao conhecimento de Suzana Lisboa, então integrante da Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos.

Foi Suzana quem ajudou os pesquisadores no contato com familiares da vítima. Quando recebeu autorização para levar o caso adiante, Graziane procurou o legista Hélio Antonio Rossi de Castro para uma avaliação. O médico confirmou que o ex-taxista morreu por asfixia, mas ressaltou que dificilmente ele teria se matado. Não havia altura suficiente para a suspensão do corpo.

Em seu laudo, Castro destacou outro detalhe que colocaria em dúvida a tese do suicídio. Segundo ele, o estômago da vítima continha "alimentos em fase inicial de digestão". O especialista então se questiona: por que alguém prestes a cometer um suicídio se alimentaria? Habitualmente, segundo ele, "há um estado depressivo tão importante antecedendo a decisão e o ato de se matar, que há perda do apetite alimentar".

Em abril deste ano, Graziane apresentou a história de Ângelo, até então pouco conhecida, na 2ª Jornada de Estudos sobre Ditaduras e Direitos Humanos. Escolheu como título uma definição sugestiva:Herzog gaúcho. A Comissão Nacional da Verdade até ontem não tinha analisado o material.

Militante atuou em ação contra banco
Março de 1970. No ano em que a conquista do tricampeonato mundial pela Seleção brasileira encabeçava a propaganda do regime, Ângelo Cardoso da Silva fincava estacas na luta armada contra a ditadura. Cerca de um mês antes de ser preso, ele participou da execução do plano de"expropriação" de uma agência do Banco do Brasil, em Viamão.

Considerado um membro periférico do M3G, Ângelo era do grupo de apoio do líder Edmur Péricles de Camargo. Dias antes do ato, ele e os companheiros se reuniram clandestinamente em uma chácara na Lomba do Pinheiro para planejar a ação armada. Motorista de táxi, foi escalado para ajudar na fuga.

O trabalho dele era deixar dois veículos à espera dos aliados em uma estrada secundária que ligava Viamão a Porto Alegre.

- O Ângelo participou da segunda etapa da fuga. Quando saímos do banco, partimos em dois carros. Depois, em outro ponto, mais distante, trocamos. Embarcamos em outros carros que o Ângelo havia deixado para nós - recorda Ignez Maria Serpa Ramminger, codinome Martinha, que participou do ataque.

Ignez, integrante do grupo de resistência VAR-Palmares, explica que a expropriação foi feita em aliança com o M3G, liderado por Edmur e integrado por Ângelo.

- Esse caso do Banco do Brasil foi uma ação conjunta da VAR-Palmares com o M3G. No Rio Grande do Sul, nunca tínhamos feito uma ação armada. E o Edmur havia feito várias. Ele veio nos ensinar - recordou.

No dia do assalto, os guerrilheiros fugiram do Banco do Brasil e, quando chegaram ao local combinado, depararam com os dois veículos deixados por Ângelo: um Fusca e um Corcel.

- Todos nós (cerca de oito pessoas) fomos presos mais ou menos um mês depois da ação de Viamão. O Ângelo foi preso uma semana antes de mim. Sempre achamos que ele havia sido morto na tortura. Essa era a minha opinião e a de outros companheiros da época. Agora, encontraram essa foto para comprovar - afirma Ignez.

Em 24 de agosto de 1998, a Comissão Especial de Indenização do Rio Grande do Sul emitiu sentença sobre o caso de Ângelo. Os documentos anexos ao processo relatam que ele foi preso em 6 de abril de 1970. Logo começou a ser torturado. A morte, ainda atribuída ao suicídio, foi registrada em 22 de abril de 1970. Como reparação simbólica, o irmão do "motorista", Bento Cardoso da Silva, recebeu a indenização de R$ 30 mil na condição de sucessor legal.

- O importante era o reconhecimento. O familiar recebia um documento em que o Estado reconhecia os atos praticados contra determinadas pessoas, que eram os presos políticos da época - diz João Carlos Bona Garcia, que também estava detido no Presídio Central nos dias da morte de Ângelo e, anos depois, presidiu a Comissão Especial de Indenização.

Bento, hoje com 91 anos e morador de Quintão, contou ontem a ZH que a família desconhecia o envolvimento do irmão com organizações de esquerda:

- Não sabíamos de nada, foi uma surpresa para nós. Começou pelo táxi. Ele fazia corridas para o pessoal da esquerda. Eles andaram se envolvendo em um assalto a banco.

Daí, foram para cima dele. Filha de Bento, Beatriz da Silva Bonetto, 63 anos, recorda que o seu tio estava na casa da mãe, dormindo, quando os agentes da repressão chegaram para fazer a sua captura.

- Minha avó sempre dizia:"Tiraram meu filho vivo e trouxeram morto". Ela sofreu muito - recorda Beatriz.

Índio Vargas: "Tudo foi apresentado como se fosse suicídio"
O jornalista Índio Vargas integrou a resistência à ditadura militar. Detido pelo regime, foi confinado no Presídio Central em uma cela contígua à de Ângelo Cardoso da Silva.

ZH - O senhor conheceu Ângelo?
Índio - Estava na cela ao lado da dele no Presídio Central. Nos conhecemos na cadeia. Quando nós vimos, a coisa toda foi muito tumultuada. Havia uma pessoa morta ao lado. Os militares queriam saber se eu tinha ouvido algum barulho.

ZH - O senhor ouviu ou viu algo estranho naquela ocasião?
Índio - Eu não ouvi.Se o sujeito vai se suicidar, ele não faz barulho. Não vi nada. Isso foi à noite. Quando acordamos, percebemos que ele não havia pego o café. A gente pegava ali mesmo, na parte da frente da cela.

ZH - Como souberam da morte?
Índio - Como ele não saiu para o café, chamamos o guarda. A porta foi aberta e ele estava lá, morto.

ZH - O senhor acreditou na hipótese do suicídio?
Índio - Ficaram dúvidas. O controle era rigoroso, foram muito duros conosco. Também havia paranoia de todas as partes. Às vezes nos tiravam de lá, depois voltávamos. Não se viu ele saindo aquela noite. Tudo foi apresentado como se fosse suicídio. Tinha um lençol lá. Ele estava enforcado, mas os pés estavam no chão.

(Juliana Bublitz e Carlos Rollsing / Zero Hora)

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