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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

** Secretário da Cultura comenta obra de Werneck Sodré

Secretário da Cultura comenta obra de Werneck Sodré

Fonte: ITU.COM.BR Publicado: Quarta-feira, 19 de janeiro de 2011 por Salathiel de Souza

Jonas Soares de Souza escreve sobre "Oeste", editado em 1941

Deborah Dubner / itu.com.br
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Jonas Soares de Souza comenta a obra de Werneck
Oeste, de Nelson Werneck Sodré (Livraria José Olympio Editora, 1941) é um estudo sobre a colonização pastoril do sertão de além-Paraná, produzido no início da década de 1940 por um grande conhecedor do território hoje pertencente ao estado do Mato Grosso do Sul. Aluno da Escola Militar do Rio de Janeiro, ao alcançar o oficialato Nelson Werneck Sodré serviu nas guarnições de Jundiaí e Itu entre 1934 e 1937, e são desse período suas primeiras incursões na região de Campo Grande, acompanhando tropas em movimento de exercício.  Em março de 1938 passa a servir na guarnição de Campo Grande e integra a campanha militar contra os grupos de bandoleiros que assolavam os chapadões do oeste. Depois dessa experiência, serviu novamente em Itu e em seguida na capital paulista, ali permanecendo até dezembro de 1941, ano em que foi promovido a capitão e no qual a Editora José Olympio publicou Oeste, na Coleção Documentos Brasileiros.  Ao escrever esse livro Sodré valeu-se mais de suas observações diretas e vivência militar do que da análise de dados estatísticos, documentos e bibliografia [1].
Na vasta produção do autor, Oeste não tem os mesmos nível e significação daquelas obras de "textura substantiva", embora, como salientou José Paulo Netto, no caso de Sodré "não há que opor o caráter testemunhal à substantividade". Memóriasde um soldado, por exemplo, "além de ser texto muitíssimo bem construído, dos mais belos da memorialística brasileira – é um extraordinário painel sócio-político da vida de nosso país, cobrindo todo o segundo terço deste século". Por outro lado, cabe ressaltar a autocrítica de Sodré acerca de Oeste, registrada em Memóriasde um escritor: o autor "não tinha o domínio das informações e das ciências necessárias à pintura de um quadro tão amplo".
José Paulo não vê esse gênero de discriminação como essencial para uma primeira aproximação ao conjunto da obra de Sodré. A seu juízo, essa aproximação reclama a distinção de dois momentos na evolução intelectual e na produção de Sodré, cujas fronteiras são demarcadas pela sua participação na direção do Clube Militar e o seu ingresso no Iseb na década de cinqüenta. Não se trata, alerta José Paulo, de visualizar um "corte" entre tais momentos ou de pensar a produção do primeiro momento como uma espécie de "idade da pedra" de Sodré. Mas de levar em consideração que as experiências aludidas levaram-no a uma revisão dos seus supostos teóricos e, "dada a sua conseqüência como pesquisador, a um tratamento diverso às temáticas que já antes saturavam o seu universo de problemas". Ao longo da sua produção alteraram-se os recortes analíticos e os suportes teóricos e metodológicos, mas o conjunto da sua obra desvela uma preocupação fundamental: a compreensão da particularidade histórica brasileira, como apontou José Paulo, um profundo conhecedor da trajetória intelectual de Sodré [2].
Oeste, publicado em 1941, é um dos livros do primeiro momento. O livro não teve reedição, a não ser a edição fac-símile impressa em 1990 pelo Arquivo do Estado de São Paulo, sem a reatualização crítica que mereceram as reedições de outras obras da mesma fase.
Sodré de certa forma justifica o seu estudo lembrando que a grande conquista do Oeste, feita pelos homens do planalto de Piratininga, teve dois instantes nítidos: o "ciclo das bandeiras" e o "ciclo das monções". Cumpre-nos acrescentar nesse desenvolvimento, diz Sodré, o "ciclo pastoril". Se, sobre o fenômeno bandeirante e as monções, a documentação é extensa e fecunda, sobre o desenvolvimento pastoril os dados se mostraram insuficientes para fundamentar conclusões formais. A primeira fase da expansão pastoril, que se deu em terras desbravadas pelo próprio movimento de expansão, tem cronistas e escritores de mérito. A segunda fase dessa expansão, aquela que se afirmou pela posse efetiva de terras já descobertas, percorridas e conquistadas definitivamente pelo elemento humano, é de uma pobreza de documentos e cronistas. É natural, explica Sodré, a cultura pastoril é fundamentalmente rústica e visceralmente pobre. Demasiadamente econômica em sinais visíveis, pouco deixou de si. Na colônia, o dominador teve dois motivos de rancor contra a cultura pastoril. O primeiro, porque ela não pesava no fisco. O segundo motivo não era menos forte: o vaqueiro tinha uma enraizada aversão ao domínio. Abandonou o litoral e penetrou no sertão, desceu e subiu rios e vales nessa constante fuga à autoridade, ao fisco e ao mando dos homens da coroa que, "arranhando o litoral", no dizer de frei Vicente Salvador, nele fixavam a organização do fisco e da repressão. O vaqueiro não deu de si cronistas brilhantes e nem ofereceu, com os seus próprios recursos, sinais  visíveis  de sua passagem territorial e de seu avanço econômico. A cultura canavieira, além dos sinais externos de sua existência, teve seus cronistas, que deixaram documentos, cartas e livros. A lavoura cafeeira teve a felicidade de encontrar os seus comentadores, que explicaram os seus rumos e peculiaridades. A mineração produziu poetas, narradores e historiadores. Só a cultura pastoril não teve a mesma sorte: nômade e dispersiva, sem acarretar a fixação, deixou poucos sinais exteriores e documentos. É essa fase quase desconhecida que Sodré se propõe a estudar, para entender as razões da pobreza do Oeste em seu tempo.
No final do século XVIII a grande conquista do Oeste era obra acabada em termos de extensão. As grandes rotas de penetração estavam abertas, havia núcleos de população e até centros de uma incipiente riqueza. É nesse período que se dão as primeiras penetrações de gado, graças ao capricho de uma hidrografia favorável. As nascentes dos formadores do São Francisco aproximavam-se das nascentes dos formadores do Paraná. Os campos abertos,as passagens obrigatórias e os pontos em que as vias fluviais permitiam vau eram um convite para a passagem, das terras de Minas Gerais para as terras de Goiás e Mato Grosso, dos rebanhos que marchavam continuamente.  Estava iniciada a conquista pastoril que se estenderia por quase todo o território palmilhado pelo bandeirismo e pelos homens das monções. Sodré chama a atenção para o fato de que a penetração do gado prendeu-se às regiões banhadas por águas dos formadores da bacia platina. Nas terras de domínio da floresta amazônica, em que corriam os rios que alimentavam o Amazonas, a expansão pastoril não conseguiu infiltrar-se. Entretanto, toda a bacia platina na sua parte do Oeste ficou dominada pelo regime pastoril.
Emborapobre, a cultura pastoril proporcionou ao Oeste o seu grande momento no sentido da ocupação e da dispersão humana. Os primeiros grupos humanos que ocupam a região seriam originários de Minas Gerais, de onde tinham vindo os rebanhos. Ao contrário dos mineiros, os gaúchos que chegam depois às terras do Oeste não se fazem acompanhar de grandes entradas de rebanhos. No caso dos gaúchos, foi uma marcha exclusivamente humana, em busca de posses novas, já desbravadas e com o gado em constante aumento. A cultura pastoril só permitia a formação de núcleos, centros de distribuição, entre os quais reinava o deserto como uma permanente ameaça. Se essa condensação devia processar-se de modo muito lento, inerente às peculiaridades do regime pastoril, ela tinha uma característica que devia aproveitar fundamentalmente à dispersão humana no Oeste: a continuidade. Enquanto as arrancadas  bandeirante e monçoeira eram fragmentárias e essencialmente descontínuas, plantando núcleos isolados que permaneciam incapazes de novas expansões, a arrancada pastoril apresentava uma continuidade lenta, que cobria intervalos e enchia os divórcios imensos. Pobre em sinais exteriores e em elemento humano, na continuidade da infiltração e no constante desdobramento dos rebanhos a cultura pastoril deixaria na geografia humana do Oeste um papel de relevo verdadeiramente único. No caso do Oeste, diz Sodré, a cultura pastoril desbravava e civilizava. Se o padrão civilizador era baixo e traria conseqüências desequilíbradoras mais adiante, não importa. No momento e no espaço em que se deu tal expansão, ela teve uma função de primeira ordem.
O drama da miséria começa com a Lei de terras de 1850. A posse precária de tão vastos territórios chocou-se com a lei que proibia a aquisição de terras devolutas por outro título que não fosse o de compra.  A posse efetiva exigia a habitação dos proprietários nos tratos de que se declaravam donos, sem o que os respectivos tratos não passariam de terras devolutas, de propriedade do Estado. Isso não ocorria pelo simples motivo da inaptidão fundamental do regime pastoril em concentrar, em adensar elementos humanos, de forma a confirmar a posse efetiva da terra. As posses nada valiam, nelas não havia sinais de trabalho humano, benfeitorias que agregassem valor. Aí residia uma das características fundamentais da cultura pastoril: o absoluto desvalor do solo, a desestima da terra. A segunda característica é o nomadismo que, em última análise, prendia-se ao pauperismo profundo do regime pastoril. Nomadismo e pobreza, pobreza e nomadismo. Essa massa humana abre caminhos, conquista terras, mas nada levanta sobre essas conquistas. Não há marcos que assinalem a grandeza dessa conquista, só a tradição oral, transmitida de pais para filhos.
A pequenez do ecúmeno no Oeste, ligada às características da produção dominante nessas terras, não podia deixar de ter uma profunda projeção na organização social e suas transformações. As distâncias infinitas divorciaram os homens e reduziram a possibilidade do trabalho coletivo que constrói e torna viável a mutação contínua. Pobreza, desertão, primitivismo, foram características permanentes, que não sofreram mais que um leve abalo com o advento de novos fatores.
A forma de ocupação do território permitiu a formação de grandes propriedades pobres, que impõem mais limites ao crescimento demográfico. Aos grandes senhores rurais a cultura pastoril só é compensadora porque a terra lhes ficou gratuita, pela posse fácil das heranças, não lhes interessando a fragmentação. Uma outra atividade da região, a exploração da erva mate, também era feita sob o regime da grande propriedade. Agravando o panorama de desolação, vigia o sistema de concessão de grandes tratos a organizações estrangeiras. São extensões vastíssimas, só possíveis no desertão do Oeste. Se as terras propícias ao gado, que são aquelas em que a lavoura se poderia estabelecer, ficam na posse de grandes proprietários brasileiros e estrangeiros, e se as outras terras não se prestam, por inundáveis, que resta a cultivar?,  pergunta Sodré. O fator grande propriedade e o fator geográfico ligado às condições físicas e ao meio prejudicam a marcha progressiva da grande para a pequena propriedade, do nomadismo para a fixação, da pobreza para a riqueza, da dispersividade de interesses para a sua comunidade – especificada nas organizações municipais.
Sodré faz uma rápida análise do desenvolvimento da Argentina e de sua trajetória para a superação dos entraves do predomínio do regime pastoril sobre a ação civilizadora da colonização agrícola.  Em seguida, aponta os pontos de contato com o quadro do Oeste: o choque profundo entre o regime pastoril e o regime agrícola, o antagonismo formal entre a cidade e o campo, as disparidades oriundas do caudilhismo, da ausência de princípio hierárquico, de fuga à autoridade, de dispersão. Esses são os quadros comuns que tiveram uma representação formidável na formação Argentina e que têm um papel de primeira ordem no cenário do Oeste.
ParaSodré, a luta contra o cenário apresentado pelo Oeste deveria se apoiar decisiva e formalmente no primado do regime agrícola, na positiva intervenção do Estado em favor da fragmentação da grande propriedade, no incremento do crescimento demográfico, na ampliação das vias de comunicação, na formação de autoridade forte e sólida apoiada nos grupamentos urbanos e na elaboração da organização municipal.
Quandoo número de pequenas propriedades agrícolas crescer e desdobrar-se, começando pelas beiras das estradas de ferro para depois penetrar no interior através das rodovias, o domínio pastoril terá que refluir e estabelecer-se em novos padrões. Só a agricultura liga o homem à terra, só ela pode estabelecer os vínculos formidáveis que interpõem limites à dissociação familiar, à pobreza eterna, à tristeza das moradas desconfortáveis, à miséria alimentar e ao obscurantismo.  O crescimento e o desdobramento das ferrovias, além de articular o Brasil com a Bolívia, oferecendo vias de escoamento pelo oceano da produção desses países, contribuirão para neutralizar a ação desnacionalizadora e antibrasileira do sistema fluvial cuja resultante conduz ao rio da Prata. A política ferroviária acarretará a expansão dos mercados abastecidos pelo parque industrial paulista, o desenvolvimento do mercado interno, e oferecerá a possibilidade do deslocamento das levas nômades, em busca de melhores condições de vida e de trabalho.
Sodré conclui afirmando que a marcha da agricultura, com o advento da pequena propriedade, será o avanço civilizador e nacionalizador que provocará o desaparecimento das forças contrárias que jogam no cenário do Oeste. Superadas as anomalias que se traduzem na instabilidade e na pobreza, o Oeste poderá estruturar uma fase de riqueza e de libertação.


[1]WERNECK SODRÉ, Nelson – Memóriasde um soldado. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1967.
                                                       –  Memóriasde um escritor. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1970.
[2]PAULO NETTO, José – Nelson Werneck Sodré. In: WERNECK SODRÉ, Nelson – O naturalismo no Brasil. Belo Horizonte: Oficina de Livros, 1992.

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