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terça-feira, 25 de maio de 2010

GEHB ** O NASCIMENTO DE UMA NAÇÃO Revisitando o Império brasileiro

 
Fonte: JORNAL ZERO HORA 22 de maio de 2010 | N° 16343

O NASCIMENTO DE UMA NAÇÃO

Revisitando o Império brasileiro

Coleção dedicada à história do Brasil no século 19 inova ao tentar abranger realidades regionais, questão urbana, religião e letras

Acompanhando um acréscimo sensível na pesquisa sobre o século 19, Keila Grinberg e Renato Salles protagonizam a organização da coleção O Brasil Imperial (Civilização Brasileira, 2009), uma brava tentativa de compor um quadro ampliado dos debates sobre o período histórico em que o país foi governado pelos Bragança.

Por décadas, os estudos sobre o Império do Brasil se concentraram no centro do país. Mais especialmente, os olhares se focavam no Rio de Janeiro, na Corte e no espaço das decisões do soberano. Recuperando uma perspectiva – a da clássica História Geral da Civilização Brasileira, editada na década de 1970 – que percebia a nação como um espaço ainda não constituído e avaliava a dimensão do regional dentro do jogo político e social, a obra organizada por Grinberg e Salles tenta, ainda que não com o sucesso desejado pelos próprios autores, dar conta das diferentes realidades regionais e de seu impacto sobre o centro do poder imperial. Os artigos de Sandra Jatahy Pesavento sobre a Revolução Farroupilha e de Gabriela Ferreira sobre a Guerra da Cisplatina são exemplos – que nos tocam diretamente – dessa abordagem. Obviamente, como os próprios autores deixam claro, dar conta de todas as regiões do Império seria difícil e impraticável do ponto de vista editorial.

Quando se pensa o período imperial brasileiro, o acréscimo em termos de pesquisa não se deu somente no que se refere a números, mas pode ser notado em novas abordagens do período. Temas clássicos como o fim do tráfico transatlântico de escravos, as revoltas regenciais e a Guerra do Paraguai surgem ao lado de preocupações muito mais recentes na historiografia nacional, como a religião, o nascente mundo urbano e as letras. Dimensões que correspondem às questões que os historiadores vêm aos poucos formulando e respondendo, garantindo que a ampliação não beneficie apenas os estudiosos: o público em geral tem se beneficiado em grande medida do aumento dos estudos, ao encontrar uma diversidade maior de grupos sociais na análise. E, sob essa perspectiva, a coleção O Brasil Imperial traz uma contribuição importante.

Cada um dos três volumes da coleção trata de um período: o primeiro, de 1808 a 1831, trata dos acontecimentos que desde a chegada da Família Real portuguesa até o fim do reinado de Dom Pedro I, fizeram surgir o Império; o segundo, de 1831 a 1870, dá conta do maior período, o que envolve as regências e o Segundo Império, quando se consolida a ordem imperial e a centralização nacional; e, por fim, o terceiro, de 1870 a 1889, reflete sobre a desagregação dos modelos monárquico e escravista. A divisão é clássica, presente em outras obras sobre o período e também nos livros escolares, mas tem o mérito de não ser estanque, de permitir que algumas abordagens que ultrapassam esses limites existam, como no caso do artigo de João Klug sobre a imigração no sul do Brasil.

A exemplo das grandes abordagens interpretativas produzidas no início do século 20, a abertura de cada um dos livros com um ensaio brinda o leitor com um resumo das principais questões de cada período, além de proporcionar textos escritos por nomes conceituados, como Ilmar Rohloff de Mattos e Hebe Mattos, para não falar da apresentação de José Murilo de Carvalho, presente em todos os volumes. Mais do que meramente afiançar ao leitor menos informado a qualidade dos trabalhos ali apresentados, a possibilidade de que tais ícones possam se dedicar à reflexão típica do ensaio remete a uma prática cada vez menos usual e, portanto, em falta na produção do conhecimento: aquela em que se propõem chaves interpretativas que tentam dar conta de um quadro ampliado e global. Sem esquecer a importância do específico, ao proporcionar tais aberturas, os organizadores permitiram que a coleção fosse acessível ao mais variado público.

Ao convidar especialistas de outras áreas, como cientistas políticos e sociólogos, Grinberg e Salles também demonstram outra faceta da atual pesquisa histórica, a de que as fronteiras do conhecimento nas humanidades precisam ser permeáveis. A contribuição que outros pesquisadores trazem à história não se restringe mais ao tempo presente, mas confere novas demandas, inclusive às questões nunca esgotáveis como as que tocam ao Brasil Imperial. Temas como a escravidão seguem presentes em debates sobre as cotas ou a regularização fundiária de remanescentes de quilombos. Em textos que tratam das relações entre senhores e escravos ou do impacto das leis abolicionistas, aspectos importantes do histórico dessas populações são debatidos e permitem uma leitura perspectiva do impacto do debate, inclusive sobre a conjuntura atual.

Entre as diferentes obras publicadas desde as comemorações dos 200 anos da chegada da Família Real ao Brasil, certamente esta coleção pode ser festejada por ter a convergência de autores, temas e abordagens que traz o quadro mais ampliado. Mas especialmente por permitir que se recomponham as discussões sobre as dimensões de cada uma das peças do quebra-cabeça que compôs a frágil unidade do Império do Brasil.

Mestre em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, autora de "Domingos José de Almeida – O Estadista da República Rio-grandense" (Instituto Memória, 2010)
POR CARLA MENEGAT
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