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quarta-feira, 1 de agosto de 2012

A história social das ciências, populações locais e saberes ganha destaque no último dia da 64ª Reunião Anual da SBPC

A história social das ciências, populações locais e saberes ganha destaque no último dia da 64ª Reunião Anual da SBPC
Fonte: (Clarissa Vasconcellos - Jornal da Ciência)
O processo de extração do coco babaçu, o início da assistência social no País e registros sobre expedições científicas na Amazônia foram alguns dos temas expostos.
    Uma mesa variada, com diferentes pontos de vista em relação à história social das ciências, foi um dos destaques do último dia da 64ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), que terminou na última sexta-feira (27), em São Luís. A atividade contou com Cynthia Carvalho Martins, do Grupo de Estudos Socioeconômicos da Amazônia (Gesea/Universidade Estadual do Maranhão); Luiz Otavio Ferreira, pesquisador da Fiocruz; e Heloisa Maria Bertol Domingues, do Museu de Astronomia e Ciências Afins (Mast).
    Cynthia abriu a discussão com uma palestra sobre tecnologias, saberes tradicionais e extrativismo e lembra que, "desde o início da modernidade, o debate da relação entre tecnologia e modos de vida esteve presente", incluindo até a presença da Igreja Católica, que questionava se os avanços e o progresso poderiam "degenerar o espírito".
    Hoje, lembra a pesquisadora, não se discute mais se a tecnologia é positiva e negativa, e sim "se é socialmente apropriada, no sentido de que todos os grupos sociais têm que ter acesso a ela, como forma de se inserir no progresso". Ela também questiona a "homogenização" desse progresso, "como se todos os povos tivessem que passar pelos mesmos estágios", ignorando suas formas de evolução técnica. "É um tipo de visão que aparece para justificar políticas de governo desenvolvimentistas, de ter um único tipo de tecnologia associado a um discurso", completa.        Máquinas ineficazes - Cynthia opina que também deveria estar em debate a questão de se considerar a tecnologia "uma ciência humana". Centrada no extrativismo do coco babaçu, sua reflexão lembra que até o século passado "predominava a ideia de que práticas de povos tradicionais eram vistas como atrasadas" e que nos anos 1980 e 1990 grupos passam a acionar "a identidade como fator de pertencimento, afirmando saberes tecnológicos locais", reivindicando modos de vidas diferenciados.   
    As quebradeiras de coco babaçu se inserem nesse contexto e a pesquisadora dá como exemplo a utilização do machado para extrair o coco, assim como o conhecimento para se fazer uma rede de pescador, ambas "técnicas inseridas em modos de vida". O machado é um exemplo relevante, já que, para os que estão de fora da realidade das quebradeiras, representa "algo ultrapassado".
    Porém, as máquinas inventadas até o momento não substituem a técnica tradicional do machado com a mesma qualidade. "O próprio óleo do babaçu, por exemplo, sai 'rancento' das máquinas, não serve para o consumo familiar. Atendem mais a interesses industriais que aos das quebradeiras, não são totalmente eficazes", pontua Cynthia, lembrando que o machado também tem uma importância simbólica para rituais culturais e religiosos do grupo.
História da saúde - Por sua vez, Luiz Otavio Ferreira, pesquisador da Fiocruz e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), se focou na história da assistência social no Brasil, fazendo um recorde de 1889 a 1930. O período é histórico nesse campo, pois foi quando houve "uma transformação no modelo da organização da assistência no geral". Ele ressalta que o chamado bem estar social no País "é localizado na segunda metade do século XX, quando se consolidam as políticas públicas de assistência", e que o recorte escolhido representa "uma importante transição, um período preparatório".
    Ferreira chama a atenção para a distinção entre filantropia - palavra hoje considerada até pejorativa no meio do serviço social, conforme lembra o pesquisador - e caridade. A primeira "diz respeito a valores e práticas do século XVIII, na Europa, na esteira do iluminismo e das revoluções liberais burguesas". Por outro lado, na época, a caridade estava mais associada a valores e práticas vinculadas à religião católica.
   Ele lembra que foram esses cristãos que propiciaram a "construção de um aparato de assistência", "cuja imagem mais concreta é representada pelas Santas Casas da Misericórdia", originárias no mundo ibérico. Essas casas priorizavam o atendimento a crianças abandonadas, órfãos, viúvas, leprosos, entre outros excluídos. A partir de 1850, o Estado Imperial do Brasil começa a intervir e assume o papel de intervir nesse mundo, ainda com o auxílio das irmandades.
    A laicização da assistência ocorre de vez no fim do século XIX, numa fase "denominada filantrópica", onde o Governo passa a atuar de fato sobre hospitais, asilos, cemitérios (que são deslocados das igrejas para as periferias das cidades), dando o primeiro passo para o que Foucault chama de "medicalização". Essa mudança determina a lógica médico científica, com a presença do Estado, mas também a organização da assistência pelos médicos. Porém, os assistidos priorizados continuam os mesmos, incluindo aí os fragilizados economicamente pelas mudanças na sociedade. Nessa época começam a se firmar também as especialidades médicas principais, como ginecologia, psiquiatria e pediatria, e a medicina passa por um processo de reconhecimento e legitimidade frente a outras práticas e valores relacionados à cura.
Química e Amazônia - A mesa redonda foi fechada pela apresentação de Heloisa Maria Bertol Domingues, do Mast, que analisou 'A Química, os Produtos Naturais e o Uso dos Saberes da Amazônia', abordando o tema desde evidências do século XVIII. Apesar de não ter formação em química, Heloisa, que é historiadora, afirma que se trata de "uma ciência onipotente", presente "em todos os nossos usos."
    Ela destaca também o papel da botânica na época, quando pesquisadores como Alexander von Humboldt se aventuraram pela América do Sul. Heloisa lembra o exemplo concreto da borracha, levada para a Europa em 1735 e "transformada em objeto de pesquisa na Academia de Ciências de Paris" e de intenso estudo em seguida.
    "Isso se dá no contexto da colonização da terra, das expedições científicas e da intensificação de pesquisas em botânica, zoologia, mineralogia, geologia e etnografia", detalha. Uma época em que a riqueza natural era considerada "infinita" e quando os produtos naturais analisados eram coletados e separados de seu uso local, criando outro entendimento.
    No início do século XX, a ideia de riqueza infinita começa a ser questionada. Ao mesmo tempo, a preocupação se volta para o conhecimento que pudesse ser útil para a diversificação da agricultura, "quando se dá a maior relação entre a química e a botânica", afirma. "A botânica classificava e química analisava e decompunha [o produto] em substâncias mais simples, definindo seu valor", conta.
    As práticas também acabavam envolvendo as relações diplomáticas, pois, da mesma forma que o Brasil era um manancial para pesquisadores, o País também recebia produtos exóticos de fora, como manga, cravo da índia, canela, pinheiros e chás, que passam a fazer parte do comércio do País, conforme lembra Heloísa. Daqui, saíam fibras têxteis, fumos, tintas de plantas, madeiras, guaraná, óleos, resinas, mates, gomas e outros. Ela lembra que o cacau, explorado na Bahia, saiu da Amazônia para ser plantado no estado.
    Um dado curioso é que na época a química adaptava nomes populares das substâncias encontradas ao batizá-las com o nome científico, oferecendo "um reconhecimento relativo" aos donos dos saberes. "O interesse das expedições, que tinham também caráter econômico e político além do científico, recaía sobre as plantas exóticas. Os produtos de uso local são considerados de segundo plano, conhecidos como drogas do sertão", detalha. Essas "drogas" incluem ervas, medicamentos, cestarias e utensílios locais.
    O fim do século XIX e início do século XX ficaram marcados pelo surgimento de cursos acadêmicos sobre agricultura, pelo surgimento dos primeiros adubos (entre eles, o guano, oriundo do conhecimento tradicional peruano) e o nascimento de grandes empresas químicas na Europa e da indústria farmacêutica na Alemanha. Ela lembra também a chegada de Paul Le Cointe a Belém, instalando a primeira escola química da região.

(Clarissa Vasconcellos - Jornal da Ciência)

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