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segunda-feira, 15 de agosto de 2011

** Estudioso vê renúncia de Jânio como ''pedagógica''

 

Estudioso vê renúncia de Jânio como ''pedagógica''

Para autor de biografia de João Goulart, ''sociedade aprendeu a valorizar a democracia''

14 de agosto de 2011 | 0h 00
Gabriel Manzano - O Estado de S.Paulo
A renúncia do presidente Jânio Quadros, somada aos três anos de turbulência política que desembocaram no golpe militar de 1964, teve um "efeito pedagógico" na história política do País, constata o historiador e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), Jorge Ferreira. "O saldo mais importante foi que a sociedade brasileira aprendeu a valorizar a democracia. Hoje o Brasil vive conflitos políticos, sim, mas ninguém fala em fechar o Congresso, em destituir um presidente."
Não é só pelos 50 anos da renúncia de Jânio que Ferreira diz isso. É que, como veterano estudioso da política brasileira daquele período, ele passou dez anos pesquisando e acaba de concluir o livro João Goulart - Uma Biografia, um estudo sobre o presidente deposto que "não se concentra naqueles dois dias finais de seu governo, 31 de março e 1.º de abril". Com 714 páginas, o livro (pela ed. Civilização Brasileira) será lançado nesta terça-feira, no Rio (na livraria Blooks/ Unibanco Arteplex), e dia 31 em São Paulo (na Casa do Saber).
"Jango ficou, nos livros e na memória de muitos, encapsulado naqueles dois dias, seja nos aspectos negativos e nos positivos", ressalta o historiador. Ele rejeita a "confluência de interesses para desqualificar sua imagem" - de incompetente e despreparado, no dizer da direita, e de burguês e populista, nos manuais da esquerda.
Ferreira procura mostrar que Jango foi muito mais que isso. Que era um grande articulador, um líder da causa das reformas, o herdeiro político de Getúlio Vargas. Foi deputado estadual, federal, presidente do PTB (então um dos dois maiores partidos do País), ministro do Trabalho, presidente do Senado, duas vezes vice-presidente e, por fim, presidente. Tinha uma enorme popularidade. Juscelino foi eleito presidente com 3 milhões de votos, Jango se elegeu vice com 3 milhões e 600 mil votos. O problema é que ele não teve êxito na difícil tarefa de recuperar um País que herdou "em completo descalabro financeiro". Mais que isso, "num agudo processo de radicalização entre a direita e a esquerda" que as levou ao confronto e ao golpe militar de 1964.
A biografia, no entanto, não se detém nesses três ingratos anos na Presidência: a obra traz à luz um Jango cuja infância ou adolescência ninguém conhece, e que, depois da queda, enfrentou dias terríveis no exílio, impedido de voltar ao País. "Fiz um esforço para evitar admirá-lo ou desprezá-lo, apenas compreendê-lo", avisa o autor.

Uma gestão movida à base de bilhetinhos

De temas importantes a reclamações sobre notícias de jornal, mensagens de Jânio estão no acervo do Fundo José Aparecido
14 de agosto de 2011 | 0h 00

Wilson Tosta - O Estado de S.Paulo
ENVIADO ESPECIAL/ BELO HORIZONTE
Em data indeterminada de 1961, o secretário particular do presidente Jânio Quadros, José Aparecido de Oliveira, recebeu do chefe um dos bilhetinhos manuscritos que eram marca do autor desde sua época de prefeito de São Paulo. "Leio a um jornal que o ministério está em crise... Veja se a localiza para mim", pedia, irônico, o presidente.
E prosseguia: "Leio, também, que recebi, da Fazenda, um bilhete "enérgico". Desminta. O ministro é educado, bastante, para não escrevê-lo ao presidente. E o presidente não é educado, bastante, para receber tal bilhete". Em 10 de março de 1961, o ministro da Fazenda, Clemente Mariani, registrou uma ordem datilografada - e inusitada - de Jânio."1) Recolher ao Tesouro cédula em anexo, de um dólar, enviada pelo estudante Carlos Alberto Allgayer, do Rio Grande do Sul. 2) Já agradeci."
Tanto o bilhete escrito à caneta azul, em papel da Presidência, sem data nem assinatura, como o texto batido à máquina e assinado com o característico "J. Quadros" hoje integram o acervo do governo Jânio Quadros recolhido ao Arquivo Público Mineiro, como parte do Fundo José Aparecido, em Belo Horizonte. O material foi passado à instituição pela família de Aparecido após sua morte em 2007. São centenas de mensagens, algumas tratando de assuntos importantes, como obras, medidas econômicas e relações com outros países , outras abordando questões pequenas - pedidos de funcionários, reclamações, notícias de jornal. Pouco mais de 20 estão escritas na caligrafia de Jânio; a maioria é formada por cópias dos memorandos, batidas à máquina.
"Usar bilhetes não era exclusividade de Jânio, Getúlio Vargas também fazia isso", explica a pesquisadora Maria Celina D"Araújo, professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). "A novidade era que a mídia ficava correndo atrás (dos bilhetes). Jânio descobriu isso. E a mídia começava a tratar a política de outra forma, como um produto a ser vendido, feito por celebridades."
Aparentemente, as mensagens, muitas vezes, não respeitavam os trâmites usuais - o presidente se dirigia diretamente a uma autarquia, por exemplo, sem passar pelo ministro. Uma delas sem data, era dirigida ao Instituto Brasileiro do Café (IBC). "Excelência. 1. Rever a norma que manda distribuir somente às torrefações o café do IBC destinado aos municípios do Pará. Estou seguramente informado de que são as torrefações que desviam o café em grão para o contrabando e o mercado negro, onde alcança o preço de até Cr$ 10.000,00 o saco. O povo paga o quilo a Cr$ 400,00. (...)
"Denúncia idônea". Os assuntos dos bilhetes eram os mais diferentes. Um determinava que o ministro do Trabalho, Francisco Castro Neves, enviasse uma equipe de fiscais do ministério e do Instituto de Previdência e Assistência dos Industriários (IAPI) a Caraguatatuba (SP). O objetivo seria checar "denúncia idônea" de violação de leis trabalhistas". "2. Quero informações precisas e notícia das providências adotadas", determina o presidente, que arremata: "3.Prazo de dez dias." Outro ordenava ao ministro da Educação, Brígido Tinoco, a nomeação do crítico José Roberto Teixeira Leite como diretor do Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), "para renová-lo e dinamizá-lo".
Uma das mensagens mais curiosas, dirigida ao ministro Tinoco, mandava constituir um grupo de trabalho para traduzir palavras de uso corrente "em diversos ramos do conhecimento científico e técnico, até hoje sem correspondentes na língua portuguesa". A comissão, explicou, poderia organizar um glossário, para ser oficializado pelo MEC. "2.Inclua no grupo os escritores e filólogos Antenor Nascentes, Paulo Rónai, Aurélio Buarque de Holanda e Cavalcanti Proença", determinou.
Em outro, de 28 de março de 1961, o presidente determinava a revisão de verbetes supostamente ofensivos a "raças, povos e religiões". Quis saber, também, que o minisgtro da Agricultura instaurasse sindicância na Escola Naconal de Veterinária, para apurar as causas na mudança de seu horário de funcionamento.
Em 3 de março, depois de ler no Correio Braziliense uma notícia sobre um médico com dois empregos públicos, dirigiu-se ao prefeito de Brasília. "Verifique se a notícia é verdadeira. Se o for, o médico escolha: trabalha em um lugar, trabalha em outro, ou não trabalha em nenhum."
  

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Fabrício Augusto Souza Gomes

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