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terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

** [Carta O BERRO] PARA NÃO ESQUECER JAMAIS! História de ANA ROSA KUCINSKI SILVA e WILSON SILVA -XXXIV-

Carta O Berro..........................................................repassem

ANA ROSA KUCINSKI SILVA (1942 – 1974)

Militante da AÇÃO LIBERTADORA NACIONAL (ALN).
Nasceu no dia 12 de janeiro de 1942, em São Paulo, filha de Majer Kucinski e de Ester Kucinski.
Esposa de Wilson Silva, ambos desaparecidos desde o dia 22 de abril de 1974. Tinha 32 anos de idade.
Professora universitária no Instituto de Química da Universidade de São Paulo.
A família de Ana Rosa e Wilson impetrou vários habeas-corpus na tentativa de localizá-los, todos eles prejudicados pela resposta de que nenhum dos
dois se encontrava preso.
Nas pesquisas feitas pelos familiares aos arquivos do antigo DOPS/SP apenas uma ficha foi encontrada onde se lê: "presa no dia 22 de abril de 1974 em SP".
O Relatório do Ministério da Marinha faz referências caluniosas a Ana Rosa.
Trechos de depoimento de seu irmão, Bernardo Kucinsky:
"Minha irmã, Ana Rosa Kucinski, e meu cunhado, Wilson Silva, foram presos e desaparecidos em São Paulo, na tarde de 22 de abril de 1974. Nesse
dia, Wilson Silva e seu colega de trabalho Osmar Miranda Dias foram fazer um trabalho de rotina, saindo do escritório da Av. Paulista para o centro
da cidade, um pouco antes da hora do almoço, após o que Wilson se separou de Osmar dizendo que iria se encontrar com sua esposa Ana Rosa, na
Praça da República. A partir desta tarde, nunca mais foram vistos. A família tomou conhecimento, através de colegas, da ausência de Ana Rosa na
Universidade e, de imediato, passou a tomar providências no sentido de localizar o casal.
Impetrou-se Habeas Corpus, através do advogado Aldo Lins e Silva, sem nenhum resultado. No dia 10 de dezembro de 1974, foi enviado pedido de
investigação à Comissão de Direitos Humanos da OEA. Meses depois, a família recebeu resposta da OEA, onde esta afirmava que, consultado, o
Governo Brasileiro declinava qualquer responsabilidade no episódio.
O general Golberi do Couto e Silva chegou a reconhecer, em dezembro de
1974, que Ana Rosa se encontrava presa numa instituição da Aeronáutica.
O governo americano – por meio do Departamento de Estado – encaminhou informações à família de que Ana Rosa ainda estaria viva, presa em local
não sabido e que Wilson Silva, provavelmente estaria morto.
As famílias dos desaparecidos políticos estiveram com o General Golberi do Couto e Silva em Brasília, em audiência solicitada por D. Paulo Evaristo
Arns. Dias depois, o Ministro de Justiça, Armando Falcão, em nota oficial, informou sobre os 'desaparecidos políticos' e incluiu na lista nomes de
pessoas que jamais foram tidas como desaparecidas. Em relação a Ana Rosa e Wilson Silva, a nota do Ministério alegava que eram 'terroristas' e
estavam 'foragidos'.
Amílcar Lobo, o médico psiquiatra envolvido com torturas no Rio de Janeiro, e que resolveu denunciar os assassinatos políticos, em uma entrevista
comigo, quando lhe mostrei fotos de minha irmã e seu marido, este reconheceu as fotos de Wilson Silva como sendo uma pessoa que ele atendera após
uma seção de torturas. Quanto a Ana Rosa, entretanto, o reconhecimento foi positivo, mas não categórico.
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+ detalhes
ANA ROSA KUCINSKI SILVA
Filiação: Ester Kucinski e Majer Kucinski
Data e local de nascimento: 12/01/1942, São Paulo (SP)
Organização política ou atividade: ALN
Data e local do desaparecimento: 22/04/1974, São Paulo (SP)
WILSON SILVA (1942 – 1974)
Filiação: Lygia Villaça da Silva e João Silva
Data e local de nascimento: 21/04/1942, Taubaté (SP)
Organização política ou atividade: ALN
Data e local do desaparecimento: 22/04/1974, São Paulo (SP)

Ana Rosa Kucinski Silva era professora universitária, formada em química, com doutorado em filosofia. Casada com o físico Wilson Silva,
trabalhava no Instituto de Química da USP. Wilson era formado pela Faculdade de Física da USP, tinha especialização em processamento
de dados e trabalhava na empresa Servix. Os dois conciliavam seu trabalho e estudos com a militância política na ALN. Ambos os nomes
estão incluídos na lista de desaparecidos políticos anexa à Lei nº 9.140/95.
Wilson era conhecido na ALN pelo codinome Rodrigues, sendo um dos poucos membros dessa organização clandestina que tinha conseguido
manter sua militância por mais de cinco anos, sem ser preso ou sair do país. Em 1961, aos 19 anos, saiu de Taubaté (SP) para estudar em
São Paulo, já trazendo consigo o interesse pela política, que nasceu em seus tempos de Escola Estadual Monteiro Lobato. Foi militante da
Polop entre 1967 e 1969, ligou-se à ALN a partir desse ano e sempre priorizou a atuação junto ao setor operário.
Ana Rosa estudou Química, na USP, durante a efervescência estudantil que marcou o início da resistência ao regime militar nessa área,
avançando seu engajamento político a partir do namoro e casamento com Wilson, que em 1966 tinha organizado com Bernardo Kucinski,
seu colega na Física da USP e irmão de Ana Rosa, uma exposição sobre os 30 anos da Guerra Civil Espanhola, na rua Maria Antonia.
No dia 22/04/1974, Ana Rosa saiu do trabalho na Cidade Universitária e foi ao centro da cidade para almoçar com Wilson, num dos restaurantes
próximos à Praça da República. Ele saíra do escritório da empresa, na avenida Paulista, junto com seu colega de trabalho Osmar
Miranda Dias, para fazer um serviço de rotina também no centro. Terminado o serviço, Wilson separou-se de seu colega e avisou que almoçaria
com sua esposa e depois voltaria para o escritório. O casal desapareceu nas proximidades da Praça da República.
Os colegas de Ana Rosa na USP estranharam sua ausência e avisaram a família Kucinski, que imediatamente começou a tomar providências
para sua localização. Ao procurarem Wilson, souberam que ele também havia desaparecido. As duas famílias passaram a viver o tormento
da busca por informações. O habeas-corpus impetrado pelo advogado Aldo Lins e Silva foi negado, pois nenhuma unidade militar ou policial
reconhecia a prisão do casal. A família foi a todos os locais de prisão política em busca de notícias e informações. A Comissão de Direitos
Humanos da OEA foi acionada, como recurso extremo, no dia 10/12/1974, data em que a Declaração Universal dos Direitos Humanos, das
Nações Unidas, completava 26 anos. O pedido de investigação daquela instância interamericana foi respondido, meses depois, pelo governo
brasileiro, afirmando não ter responsabilidade alguma sobre o destino do casal e que não tinha informações sobre o caso.
Reinaldo Cabral e Ronaldo Lapa descrevem, em Desaparecidos Políticos, a busca junto ao governo dos Estados Unidos: "O Departamento
de Estado norte-americano, solicitado a dar uma informação, comunicou à American Jewish Communitee, entidade dedicada, entre outras
coisas, a procurar pessoas desaparecidas na guerra, famílias separadas, e também à American Jewish Congress, espécie de federação das
organizações judaicas religiosas culturais, que Ana Rosa estava viva, mas não sabia onde. A última informação do Departamento de Estado
foi transmitida à família Kucinski em 7 de novembro de 1974".
Esse mesmo livro traz um depoimento de Bernardo Kucinski, que se formou em Física mas optou pelo jornalismo, tendo trabalhado na BBC de
Londres e colaborado nos semanários Opinião e Movimento, antes de publicar vários livros e se tornar professor de jornalismo na USP: "Certeza da
morte já é um sofrimento suficiente, por assim dizer. Um sofrimento brutal. Agora, a incerteza de uma morte, que no fundo é certeza, mas formalmente
não é, é muito pior. Passam-se anos até que as pessoas comecem a pensar que houve morte mesmo. E os pais principalmente, já mais idosos,
nunca conseguem enfrentar essa situação com realismo". Bernardo Kucinski também contou, numa entrevista para a revista Veja, que a família foi
extorquida em 25 mil dólares em troca de informações, que ao final se mostraram inteiramente falsas.
O cardeal arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, conseguiu, conforme já registrado, uma audiência em Brasília com o general Golbery
do Couto e Silva e obteve como resposta promessas de investigação. Pouco tempo depois, o ministro de Justiça, Armando Falcão publicou a insólita
nota oficial informando sobre o destino dos desaparecidos políticos, onde Ana Rosa e Wilson Silva foram citados como 'terroristas foragidos'.
Anos depois, o tenente-médico Amílcar Lobo, que serviu no DOI-CODI/RJ e na "Casa da Morte", em Petrópolis (RJ), concedeu entrevista
denunciando os assassinatos políticos que presenciara naquelas unidades militares. Procurado por Bernardo Kucinski, o médico reconheceu
Wilson Silva como sendo uma das vítimas de torturas atendidas por ele. Ao ver a foto de Ana Rosa, o militar a identificou como uma das
presas, mas sem demonstrar convicção ou certeza. Também o ex-agente do DOI-CODI/SP, em entrevista à Veja de 18/11/1992, informou:
"Foi o caso também de Ana Rosa Kucinski e seu marido, Wilson Silva. Foram delatados por um cachorro, presos em São Paulo e levados para
a casa de Petrópolis. Acredito que seus corpos também foram despedaçados".
O Relatório do Ministério da Marinha, enviado ao Ministro da Justiça, Maurício Correa, em 1993, confirmou que Wilson Silva "foi preso em
São Paulo a 22/04/1974, e dado como desaparecido desde então". Na ficha de Wilson Silva, no arquivo do DEOPS, consta que ele foi "preso
em 22/04/1974, junto com sua esposa Rosa Kucinski".

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