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segunda-feira, 2 de agosto de 2010

GEHB ** Homenagem com restrições - Tese de Gilberto Freyre sobre democracia racial foi contestada por Fernando Henrique Cardoso

 

Homenagem com restrições

G1 - Postado por Luciano Trigo em 24 de julho de 2010 às 11:08
Tese de Gilberto Freyre sobre democracia racial foi contestada por Fernando Henrique Cardoso

Gilberto Freyre / Divulgação
Uma expectativa acima do normal cerca a conferência de abertura da FLIP deste ano. Não somente pelo ineditismo da participação de um ex-Presidente da República – que aliás mantém o status de figura política de proa, num ano de eleição – mas também porque a relação entre o palestrante – Fernando Henrique Cardoso – e o homenageado – Gilberto Freyre – é no mínimo ambivalente.
Fernando Henrique integrou o grupo de intelectuais da USP que, a partir dos anos 60, contestou com bastante ênfase as teses defendidas pelo sociólogo pernambucano em Casa Grande & Senzala e outras obras – sobretudo o conceito da democracia racial, por meio do qual ele teria "romanceado" a escravidão. De inspiração marxista, os chamados "uspianos", capitaneados por Florestan Fernandes, contestavam essa interpretação supostamente idílica de nossa História e se distanciaram ainda mais do sociólogo quando ele decidiu apoiar o regime militar instaurado em 1964. A partir dali a querela teórica se transformou em hostilidade política explícita ao "mestre de Apicucos": Freyre virou uma espécie de proscrito, com suas obras banidas das grades curriculares.
Os tempos são outros, naturalmente, a nos últimos 20 anos Gilberto Freyre vem sendo objeto, por assim dizer, de uma reabilitação, mesmo num bastião do pensamento de esquerda como a USP – processo do qual faz parte o prefácio escrito pelo próprio Fernando Henrique Cardoso para a última edição de Casa Grande & Senzala. O tom do prefácio, elogioso mas ambíguo, deve se repetir na conferência de FHC.
Vale lembrar, por outro lado, que, quando estava na Presidência, Fernando Henrique decretou 2000 como o Ano Nacional Gilberto Freyre. Em todo caso, o retrospecto de antagonismo permite esperar uma mesa de abertura movimentada na FLIP, com a intermediação do historiador Luiz Felipe de Alencastro. Sobretudo se o debate enveredar pela questão racial, já que FH se mantém crítico ao pensamento de Freyre sobre o tema. Ou se, no debate, a platéia tentar partidarizar a discussão em ano de eleição.
A expressão "democracia racial" reflete a idéia de que o Brasil escapou do racismo e da discriminação presentes na formação histórica de outros países, como os Estados Unidos: os brasileiros, pelo menos em sua maioria, não se veriam pelas lentes da discriminação racial, ou seja, questões de raça não seriam limitadoras da mobilidade social em nossa sociedade – ou seriam menos limitadoras que outros fatores, como o sexo e a classe social. Para os críticos da teoria, isso acabou gerando uma atitude generalizada e hipócrita de dissimulação do preconceito em nosso país. Daí, por exemplo, a resistência às políticas de cotas raciais nas universidades e as ações afirmativas no Brasil.
É claro que a obra de Gilberto Freyre é muito mais abrangente e ambiciosa do que sugere o debate sobre a democracia racial. Freyre estabeleceu as regras de uma gramática social brasileira, desenvolvendo uma reflexão original sobre a especificidade do processo de formação da sociedade brasileira. Foi pioneiro em atribuir um valor positivo à mestiçagem, em sistematizar nossa aptidão para conjugar diferenças, para plasmar costumes e valores. Fez História da vida privada muito antes de a própria expressão ser cunhada e popularizada pelos franceses. Incorporou em suas pesquisas a comida, as doenças, a arquitetura, o comportamento sexual, os hábitos de higiene – em suma, o homem comum, numa época em que a História era a História das elites. comida, doenças, arquitetura, sexualidade, hábitos de higiene, Freyre introduziu o homem comum numa ciência voltada para o vistoso movimento das elites.
Hoje a interpretação do Brasil inaugurada por Gilberto Freyre é reconhecida como inovadora por intelectuais de todos os matizes ideológicos. Há quem aponte, contudo, para os riscos de uma reabilitação acrítica, que passe por cima das imperfeições de sua obra teórica – em diversos momentos conservadora e pouco científica – e ignore deliberadamente a colaboração do sociólogo pernambucano com o regime militar, que envolve episódios não suficientemente esclarecidos de perseguição a professores da Universidade do Recife, como Luiz Costa Lima. Isto é, o monumento se sobrepõe ao homem.
Por maiores que sejam as diferenças, o certo é que Gilberto Freyre e Fernando Henrique Cardoso compartilham no mínimo uma característica: a vaidade. Darcy Ribeiro dizia que Freyre "devorava elogios como bombons", e conta-se que o sociólogo ficou indignado quando viu que uma enciclopédia dedicava mais linhas ao verbete Jorge Amado que ao seu. De Fernando Henrique, basta citar uma frase de seu livro A arte da política: "Talvez minha vaidade seja menor que a inteligência".


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"A História é o passado ressignificado"
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Fabrício Augusto Souza Gomes



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