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segunda-feira, 6 de junho de 2016

Atrás da coxia, o Rio de Janeiro da Belle Époque.

Fonte: FAPERJ - Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro 

Aline Salgado
Irmão de Aluísio Azevedo, autor de O Cortiço, Artur foi 
jornalista e dramaturgo (Foto: Reprodução)
Um rico recorte histórico e um personagem pouco conhecido do grande público. Esses sãos os ingredientes da etnografia contada pela pesquisadora em Antropologia Social e professora de Comunicação Social da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Tatiana Oliveira Siciliano. Pelas páginas de O Rio de Janeiro de Artur Azevedo: cenas de um teatro urbano (Edit. Mauad X, p.333), Tatiana leva os leitores a uma viagem de volta à capital do Brasil no final do século XIX e início do XX, quando a República dava seus primeiros passos e os ares de modernização se misturavam aos anseios de uma sociedade que buscava deixar para trás um passado de atraso, vinculado ao tempo de colônia e escravidão. 
A obra é uma adaptação da tese de doutorado da pesquisadora, defendida em 2011, no programa de pós-graduação em Antropologia Social do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (MN/UFRJ), sob orientação do antropólogo e pioneiro nos estudos sobre Antropologia Urbana, Gilberto Velho – que faleceu em 2012. Por meio do Auxílio à Editoração (APQ 3) da FAPERJ, Tatiana Siciliano conseguiu recursos para publicar sua análise socioantropológica do universo ficcional de Artur Azevedo e, assim, difundir para o público essa rica figura intelectual.
Irmão de Aluísio Azevedo, autor de O Cortiço, e colega de repartição de Machado de Assis no Ministério da Viação, Artur Azevedo é o que hoje chamaríamos de "comunicador de massas". É assim que define a própria pesquisadora. Segundo Tatiana, Artur Azevedo foi um intelectual antenado à cultura de massas emergente. Um escritor de plateias amplas e heterogêneas, de letrados a analfabetos, que analisava com humor as virtudes e os vícios das transformações políticas, sociais e culturais pelas quais passava a capital da nova República. 
“Artur Azevedo queria ser entendido por todos os tipos de pessoas, até mesmo por aquelas que liam sobre os ombros dos outros. É importante lembrar que aquele era um tempo em que, apesar de a maior parte da população ser analfabeta, os jornais circulavam e quem lia contava o que lia aos outros”, salienta Tatiana, que escolheu como recorte histórico para seu estudo o período de 1902 a 1908, ano da morte do intelectual. 
    Tatiana assina autógrafos na noite
    de lançamento 
(Foto: Arquivo Pessoal)
Membro fundador da Academia Brasileira de Letras (1897), o jornalista e dramaturgo Artur Azevedo foi colaborador de diversos jornais da época, como O País, O Diário do Rio de Janeiro, Diário de Notícias, Novidades, Vida Moderna (que ajudou a fundar), O Álbum (que dirigiu), A Estação (no qual era redator na mesma época em que Machado de Assis publicou alguns de seus contos e romances), A NotíciaO MequetrefeCorreio da Manhã e O Século.
Como dramaturgo, escreveu peças de teatro, crônicas, contos e sainetes (pequena peça alegre do teatro espanhol, que passou a designar um gênero para o qual se usa hoje a palavra esquete), publicados em dezenas de folhas, que tinham como temática preferida o cotidiano da cidade e o choque entre o novo e o arcaico, seja no que diz respeito aos costumes, seja em relação às novas tecnologias, tais como os automóveis, os bondes, a energia elétrica e o cinematógrafo. “Artur Azevedo era conhecido pelas peças que escrevia para o teatro ligeiro musicado, no qual se inseriam as revistas de ano, maior produção do autor. Essas revistas eram retrospectivas satíricas, cantadas e dançadas, sob a forma de esquetes”, diz Tatiana.
Cabe lembrar que o pano de fundo das produções de Artur Azevedo é o Rio de Janeiro da belle époque, uma cidade em ebulição, com as expectativas de modernização e progresso que se seguiram ao fim da Guerra do Paraguai, ao movimento republicano, à intensificação da imigração europeia, à abolição da escravidão e ao fim do Império, além das reformas urbanas empreendidas na então capital federal por Pereira Passos e as campanhas de urbanização e higienização que tanto desafiaram os costumes nacionais na gestão de Rodrigues Alves (1902-1906).
A obra foi lançada em 2014
pela 
editora Mauad X 
No meio político, Artur Azevedo se destacou como defensor do Theatro Municipal, inaugurado um ano após sua morte. “O intelectual defendia a criação de um teatro nacional que formasse atores e dramaturgos. Um espaço patrocinado pelo Estado, a exemplo da Comédie-Française. Para Artur Azevedo, o País precisava desenvolver uma indústria cultural que remunerasse atores e dramaturgos. Só assim, segundo ele, o País conseguiria ter talento e inovação nas produções nacionais”, afirma Tatiana.
Mas tal concepção de espaço voltado à dramaturgia foi deturpada pelas decisões de políticos da época. Conforme nos conta a pesquisadora em seu livro, apesar de aprovado por lei desde 1895, o teatro nacional só foi inaugurado em 1909, com outra concepção: dirigido por companhias internacionais e destinado a grandes espetáculos. Apenas a partir dos anos 1930, na gestão de Getúlio Vargas, o Theatro Municipal viria a ser patrocinado pelo governo.

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