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quinta-feira, 30 de abril de 2015

A força do choro: estilo musical genuinamente carioca passa por fase de revitalização

Débora Motta

Os instrumentos típicos do choro caracterizam a
sonoridade 
delicada e 'chorosa' do gênero musical
(Foto: Divulgação/Wikipédia)

AGÊNCIA FAPERJ - A delicadeza dos sons emitidos pela confluência entre instrumentos como o cavaquinho, o violão (de seis e sete cordas), o bandolim, a flauta e o pandeiro caracteriza o choro. Considerado um gênero musical que retrata o espírito tipicamente carioca, ele vem ganhando mais destaque no cenário musical da cidade desde os anos 1970. O movimento de revitalização desse estilo, chamado afetivamente de chorinho, é o tema do projeto de pesquisa desenvolvido na Universidade Federal Fluminense (UFF) pela historiadora Luiza Mara Braga Martins. O estudo foi contemplado no programa de Apoio ao Pós-Doutorado no Estado do Rio de Janeiro, da FAPERJ, como um desdobramento do projeto Identidades do Rio, apoiado anteriormente pelo edital Pensa Rio – ambos sob a orientação da historiadora Hebe Mattos, coordenadora do Laboratório de História Oral e Imagem na universidade (Labhoi/UFF).
Considerado como o primeiro estilo musical urbano a expressar a identidade brasileira, o choro se popularizou nos salões e quintais dos subúrbios cariocas a partir de 1870, originando-se da fusão de ritmos europeus com ritmos afro-brasileiros e um jeito “choroso” de tocar. Nesse período, destacavam-se os talentos do flautista Joaquim Calado (1848-1880), que compôs o clássico Flor Amorosa; do músico Henrique Alves de Mesquita, autor do primeiro tango brasileiro,Ali-Babá; e da primeira maestrina do Brasil, a pianista e compositora Chiquinha Gonzaga.
Nas primeiras décadas do século XX, houve um período áureo do choro, com representantes de primeiro quilate do gênero musical, entre eles Pixinguinha, que lançou a primeira gravação de Carinhoso em 1928; Jacob do Bandolim, autor de Noites Cariocas, entre muitos outros choros; e Ernesto Nazareth. Essa geração de chorões organizava-se em conjuntos, os chamados regionais, que introduziram a percussão nas composições. Depois dessa fase, o choro passou por anos de esquecimento. A chegada da bossa nova no mainstream acelerou esse processo.
“Os anos 1950 e 1960 foram marcados pela bossa. O melhor instrumentista de choro não combinava com o minimalismo exigido pelo novo jeito de tocar. Os chorões não tinham mais espaço na mídia, especialmente na rádio”, conta Luiza. “Mas o choro nunca morreu. Nessa época, ele se recluiu para as varandas e os quintais de músicos que continuavam fiéis ao estilo”, completou.
Esse período de ostracismo se estendeu até 1970, considerada a década do renascimento do choro para as grandes plateias. “Nos anos 1970, vários movimentos deram início a uma revitalização desse gênero musical. O espetáculo Sarau, que estreou em 1973, foi estrelado por Paulinho da Viola e pelo conjunto Época de Ouro, e produzido pelo jornalista Sérgio Cabral. Além disso, surgiram novos grupos no Rio, como Os Carioquinhas, com os grandes violonistas Raphael Rabello e Maurício Carrilho, além da cavaquinista Luciana Rabello, e o Camerata Carioca, em que a formação já citada era acrescida pelo maestro Radamés Gnattali e por Joel Nascimento, no bandolim. Algumas gravadoras abriram espaço e produziram discos do gênero. Surgiram ainda os concursos de conjuntos no Rio de Janeiro e o Festival Nacional do Choro da TV Bandeirantes”, contextualizou Luiza.
Por esse motivo, a historiadora escolheu a década de 1970 como marco inicial da pesquisa, que acompanha o desenrolar desse movimento até hoje. Contribuindo para formar um acervo da produção contemporânea do choro no Labhoi/UFF, ela vem entrevistando diversos músicos que atualmente se dedicam ao estilo na cidade. “É importante que exista um acervo que resguarde a memória do que hoje se produz musicalmente. A história oral é uma rica fonte de pesquisa. Daqui a alguns anos, um historiador poderá saber que em 2015 estava se fazendo música de grande qualidade no Rio, mas que encontrava pouco espaço na mídia. O choro ainda é desconhecido do grande público, é praticamente como se não existisse nos meios de comunicação de massa”, ressaltou Luiza.
 O flautista Joaquim Calado, um dos músicos
 que ajudaram a construir a história do choro
              (Foto: Divulgação/Wikipédia)

A partir desses relatos, ela vai costurando o panorama do choro contemporâneo no Rio. “Escutar esse tipo de música dá um sentimento de pertencimento à cidade. O choro está ligado à cidadania musical do Rio, cidade tradicionalmente formadora de sons”, justificou. Ao final do trabalho, que deve se estender ao longo de 2015, os vídeos serão armazenados no storage do Labhoi, onde ficarão disponíveis para consultas de pesquisadores e interessados no tema. 



Luiza destaca que, hoje, o grande centro difusor da cultura do choro é a Escola Portátil de Música, que funciona aos sábados nas dependências da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio). A previsão é de que, ainda este ano, a escola ganhe um espaço na Rua da Carioca, que será denominado Casa do Choro. “Além de oferecer educação musical nos diversos instrumentos, em canto e em canto coral, a Escola Portátil tem o mérito de formar novas plateias, que apreciam esse gênero musical”. 


Pensando na importância de fazer esse registro cultural, ela vem coletando depoimentos em vídeos de alguns dos músicos mais atuantes do choro, e também do samba, atuais. Por enquanto, foram 17 entrevistas filmadas. Entre os entrevistados, estão representantes da geração que hoje está na ativa, como os já citados Maurício Carrilho e Luciana Rabello, o bandolinista Rodrigo Lessa, o flautista e saxofonista tenor Eduardo Neves, o cavaquinista Eduardo Galotti e o pandeirista Pedro Miranda, o percussionista Marco Basílio, neto de Ernesto dos Santos, mais conhecido como Donga – uma das lendas da música brasileira, que entrou para a história em 1917, ao realizar a primeira gravação de um samba no Brasil, a música Pelo telefone; o ator e cantor Marcelo Viana, neto de Pixinguinha; os bandolinistas Pedro Amorim e Pedro Aragão; o cavaquinista Jaime Vignoli, os integrantes do grupo Pixin Bodega, o violonista Pedro Holanda, o flautista e comunicólogo Eduardo Granja Coutinho; entre outros nomes.

Para ela, a cultura popular é viva, mas políticas de fomento são sempre bem-vindas. “É preciso criar políticas direcionadas de incentivo governamental para que os músicos de choro possam se inserir no mercado de trabalho. A Lei Rouanet muitas vezes patrocina artistas que já estão na mídia e que não precisam dela. Seria importante ter um enfoque específico para apoiar a cultura popular da cidade, incluindo o choro”, destacou Luiza. “E que o choro seja eleito como patrimônio imaterial da humanidade, como o samba já é”, defendeu.
Uma cronologia do choro disponível na internet
Uma linha do tempo criada por Luiza conta toda a história da formação do choro, desde a sua gênese no século XIX, passando pelos principais marcos de sua produção, e se estendendo até hoje. Com vídeos, ilustrações e informações, o material é uma fonte de pesquisa disponível no site: www.pensario.uff.br . Esse trabalho foi realizado no escopo do projeto Identidades do Rio, coordenado pela historiadora Hebe Mattos. “O samba e o choro têm um lugar estratégico para pensar a história social e cultural do Rio e do País. Os relatos dos próprios músicos, sobre como eles se relacionam com a música e com as raízes do que eles fazem, contribuem para termos um olhar sobre o Rio de Janeiro e pensarmos sobre o papel da música na construção da própria imagem da cidade”, explica Hebe.
A coordenadora do Labhoi lembrou que o espaço agrega pesquisas que têm como base fontes alternativas às fontes escritas preservadas nos arquivos, tradicionalmente usadas pelos profissionais da área para pensar as relações da história. Assim, o Labhoi prestigia a história oral, com destaque para testemunhos e fontes audiovisuais. “No 'Identidades do Rio', contemplado pelo edital Pensa Rio da FAPERJ, conseguimos agregar uma rede de pesquisadores formada por historiadores, antropólogos e educadores de cinco programas de pós-graduação de universidades fluminenses e produzir um repositório de informações para serem utilizadas por outros pesquisadores, mas numa linguagem acessível ao público em geral”, contou Hebe.
A rede de pesquisas tem a participação dos programas de pós-graduação PPGH/UFF, PPGHS/Uerj, PPHPBC/CPDOC-FGV, PPGH/UFRRJ e PPGH/UniRio, além do Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, do Museu de História e Arte do Estado do Rio de Janeiro e do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, por meio do Pontão da Cultura do Jongo e do Caxambu. 
Além do estudo sobre o choro, o site reúne dados de pesquisas sobre a identidade do estado do Rio de Janeiro a partir de alguns eixos históricos, geográficos e patrimoniais: o litoral e as baixadas litorâneas, de ocupação antiga relacionada ao período colonial, com construções coloniais, aldeias indígenas e antigas cidades; o Vale do Rio Paraíba, povoado já no período monárquico com a expansão do café, que se tornaria a principal riqueza de exportação do jovem país; e, por fim, as migrações internacionais e internas entre as várias regiões do estado, a Baixada Fluminense e a cidade do Rio, especialmente no século XX. Também apresenta links para bibliotecas e plataformas digitais que disponibilizam conhecimento sobre esses temas na Internet. Enfim, trata-se de um espaço interessante para refletir sobre a memória cultural e social do Rio de Janeiro.

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