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quinta-feira, 10 de novembro de 2011

** Veja além das aparências

Veja além das aparências

Fonte: FAPERJ Elena Mandarim

 Sebastião Pinheiro/JB
         
Aparentemente singela, a foto, na verdade, revela os castigos
 aplicados no Instituto Coração de Maria, nos anos 1950.
 
 
Ao olhar a fotografia, em preto e branco, de uma menina sentada à frente de uma porta de madeira, com um leve sorriso, aparentando uma timidez condizente com seus poucos anos de idade, o que o leitor pensaria? Poesia? Beleza? Inocência? Todas as opções são possíveis. Contudo, a foto descrita acima foi tirada para mostrar a sala de cimento, úmida, com meio metro de altura, na qual as internas do Instituto Coração de Maria ficavam agachadas, por períodos de até um mês e meio, como forma de castigo. O livro “As aparências enganam? Fotografia e pesquisa”, lançado pela pesquisadora Tânia Mara Pedroso Müller, da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF), investiga a hipótese de que a imagem pode ser utilizada como “tradução da verdade” em pesquisa e se é possível desvendar a intenção do autor ou da agência que a produziu.
A publicação, que contou com recursos do programa de Auxílio à Editoração (APQ 3), da FAPERJ, revela o cotidiano de meninas e meninos que viviam nas instituições vinculadas ao Serviço de Assistência ao Menor (SAM). A partir da análise de 144 fotografias e 234 reportagens, grande parte delas produzidas numa série de denúncias feitas pelo Jornal do Brasil, entre os anos 1959 e 1961, a autora fez um levantamento histórico do SAM e do contexto social da época, tema de sua tese de doutorado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). "Algumas dessas reportagens, escritas pela jornalista Ana Arruda Callado, foram contempladas com o Prêmio Esso de Jornalismo (uma das mais importantes premiações da área). E parte das fotografias são de autoria de Alberto Ferreira, um dos fotógrafos mais prestigiados da época, que agora integram o acervo do Instituto Moreira Salles", ressalta a autora.
Tânia relata que a trajetória do SAM e os fatos históricos sobre as imagens foram sendo revelados na medida em que a pesquisa foi sendo desenvolvida: “o interessante é que as imagens selecionadas para análise são lindíssimas. Contudo, quando buscávamos os textos que as acompanhavam, fomos desvendando uma série de denúncias de maus-tratos e péssimas condições de vida que as crianças sofriam em instituições do SAM, como o Instituto Coração de Maria e a Escola Governador Macedo Soares Foi aí que percebi que era preciso desvendar a dura realidade que estava por trás daquelas imagens aparentemente suaves”, explica a pesquisadora.

Pelas páginas do livro, a pesquisadora mostra, de várias formas, como o sentido da imagem pode ser alterado. “Nem todas as matérias são de denúncia. Algumas até mostram aspectos positivos, como o texto do Jornal do Brasil  falando sobre a importância das escolas do SAM, que, além de educação, garantiam alimentação. A foto usada para ilustrar a reportagem foi a de um menino, com um ar de felicidade, sentado à mesa com um prato de sopa de feijão. Mas a foto teve um recorte, que é um recurso do fotojornalismo e pode mudar o sentido original da imagem. Nos arquivos, a foto original mostra que além desse menino, há ao lado uma menina com um semblante nada feliz e atrás uma inspetora, talvez em atitude de vigilância.”, conta Tânia.

Contada através das análises fotográficas, a história do SAM foi bem utilizada para ratificar a ideia central do livro de que a descontextualização pode alterar o sentido da fotografia. “A própria capa foi pensada para ser uma provocação nesse sentido. Ao ler o livro, é possível que o leitor pense que a imagem das grades que ilustra a capa, tenha sido tirada de uma dessas instituições que aprisionavam os jovens internos. No entanto, trata-se de uma fotografia que eu tirei de dentro do Convento das Carmelitas, na cidade de Olinda”, conta Tânia.
No livro, é nítida a preocupação da autora em dar uma base teórica sobre as técnicas do jornalismo e da fotografia. Entre os autores que embasaram esse percurso, destacam-se: Boris Kossoy, Milton Guran, Jacques Le Goff, Michel de Certeau e Nilda Alves. “Deve-se compreender, no processo de análise de fotografias, que elas comportam vários sentidos, e, portanto, alguns devem ser observados: um mais objetivo, que diz respeito ao que o próprio objeto fotografado significa; outro que tem um juízo de valor agregado pelo fotógrafo, que escolhe uma entre infinitas possibilidades de registrar e recortar a foto; e, por fim, uma completamente subjetiva, que está na interpretação de quem vê a imagem”, diz.

Contudo, Tânia explica que essa multiplicidade de sentidos não faz a fotografia perder seu valor como fonte histórica, nem como instrumento de pesquisa. “Para tal, faz-se necessário levantar os diversos aspectos contidos na imagem e sua contextualização, além de perceber os conteúdos subjacentes e os motivos para seu registro”, argumenta a pesquisadora.

Um pouco sobre o SAM

 Tânia Müller/ UFF
    
   A foto da capa do livro é uma provocação: leva o leitor a entender
     como a imagem fora de contexto pode ter seu sentido alterado
 
O Serviço de Assistência ao Menor foi criado em 1941, durante a ditadura de Getúlio Vargas. Foi pensado para sistematizar e orientar os serviços prestados pelas instituições de assistência a menores infratores e  menores abandonados e/ou órfãos. “Os infratores eram direcionados para reformatórios e casas de correção; já os desvalidos iam para escolas de aprendizado de ofícios urbanos. Mas em todos os casos, as crianças deveriam receber educação e tratamento psíquico até seu desligamento”, conta Tânia.

Em 1944, o SAM contava com 33 internatos. Dez anos depois, os estabelecimentos particulares ligados ao SAM chegavam a trezentos. Nos anos 1960, uma série de denúncias mostrou os maus-tratos, as péssimas condições de saneamento e os castigos – como solitária e palmatória – a que as crianças eram submetidas. Não é por acaso que o SAM era conhecido como o "internato dos horrores". "Na ocasião, foi aberto um inquérito para apurar as denúncias e até alguns de seus dirigentes o condenaram. As investigações e um extenso relatório produzido pelo governo estadual apontaram falhas e abusos, que forçaram o encerramento do SAM", afirma a pesquisadora. Em seu lugar surgia a Fundação Nacional de Bem-Estar do Menor (Funabem). "Tempos depois, denúncias semelhantes colocavam em xeque se a mudança na instituição havia sido real ou teria ficado apenas no nome", aponta Tania.    
© FAPERJ – Todas as matérias poderão ser reproduzidas, desde que citada a fonte.



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