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quinta-feira, 2 de junho de 2011

** Nota escrita quando da morte de Nelson Werneck Sodré.

 
A Morte de um General Diferente

Mário Maestri*

Com o falecimento, em 13 de janeiro, de Nélson Werneck Sodré, o Brasil perde um dos seus mais longevos e brilhantes pensadores. Werneck Sodré nasceu, em 1911, e ingressou, ainda jovem, na carreira militar, onde alcançou o generalato. Desde jovem oficial, dedicou-se ao estudo da sociedade brasileira, publicando, em 1938, com apenas 27 anos, seus dois primeiros livros, Panorama do Segundo Império e História da literatura brasileira : seus fundamentos econômicos. 
O título do segundo livro - que, ampliado, conheceu inúmeras reedições –assinalava já a opção metodológica do autor. De seu debut como escritor até sua morte, Sodré dedicou-se à análise materialista da sociedade brasileira. Apesar de ter-se consagrado sobretudo como historiador, produziu vastíssima obra abordando diferentes aspectos da formação social brasileira - literários, geográficos, sociológicos, políticos, etc.
Nos anos quarenta, cinqüenta e sessenta, Sodré desempenhou singular importância na formação da intelectualidade brasileira, em geral, e de esquerda, em particular. O fato de ter sido o mais brilhante defensor da existência de relações semi-feudais no passado`do Brasil,  tese defendida pelo Partido Comunista Brasileiro, então maior partido da esquerda do país, determinou forte desvalorização de sua produção teórica, quando da crise daquela organização, golpeada pelo golpe de 1964.
Antes e após o golpe, diversos pensadores de esquerda propunham, em oposição a essa leitura, o caráter capitalista acabado da sociedade brasileira e, portanto, um programa socialista para o país. Na época, a ideologização da discussão historiográfica levou a que parcelas da intelectualidade e da militância de esquerda negassem, em bloco, a produção de Sodré.  O debate entre passado semi-feudal e capitalista seria superado, em 1978, por Jacob Gorender, dirigente dissidente do PCB, ao propor uma essência escravista do Brasil, até 1888, em O escravismo colonial.
Intelectual e politicamente ativo após a redemocratização, Sodré permaneceu, com Oscar Niemeyer, também de sua geração, ao lado de Luiz Carlos Prestes, quando o velho secretário-geral rompeu com o PCB, acusando sua direção de revisionismo. Na década de 80, sob a pressão da maré neoliberal, o marxismo conheceu forte desprestígio entre a intelectualidade, sendo praticamente defenestrado dos cursos universitários de história, sociologia e letras. Nesses anos, intelectuais de esquerda abandonaram suas posições sob a pressão da conjuntura hostil. Mesmo após o fim da URSS, o velho general perseverou em suas concepções.
Nesses anos, construiu-se uma quase conspiração de silêncio em torno da obra de Sodré. Diversas gerações de cientistas sociais formaram-se escutando que o velho pensador constituia anacronismo que se negava a render-se aos novos tempos. Em geral, essa desqualificação foi realizada sem o estudo da obra em questão, não raro, por críticos que não a conheciam. Tal era essa ignorância que os próprios críticos continuaram veiculando conteúdos, corretos e incorretos, atuais ou vencidos, cunhados ou difundidos pelo historiador, em sua vasta produção.
A negativa a uma apreciação sistemática da obra de Sodré devido a seu conteúdo e opções metodológicas determinou verdadeiro empobrecimento das ciências sociais brasileiras. Na sua práxis historiográfica, esse autor aventurou-se por sendas, sobretudo historiográficas, que décadas mais tarde seriam apresentadas, como último grito da pós-modernidade, em geral num sentido conservador. Em seus livros encontram-se páginas magistrais sobre a história da vida quotidiana e das mentalidades; sobre as relações entre história e literatura; sobre aspectos variados e inusitados da história política, etc.
Sodré distinguiu-se também pela plena consciência dos nexos essenciais que unem, também nas ciências sociais, forma e conteúdo. Por ter escrito sua obra com virtuosismo de artista e de artífice, a leitura de muitos de seus livros permitem verdadeiro prazer estético.
A obra sodreana construiu-se através de seis décadas. Um dedo a mais da metade de história republicana do Brasil! Ela constitui tentativa de reflexão sistemática, a partir do método marxista, da sociedade brasileira, passada, presente e futura, e singular registro da evolução de importante vertente da intelectualidade nacional.
A historiografia e o movimento social brasileiro batem comovidos continência diante do velho general que entra, de cabeça erguida, para as páginas da história que tanto amou.

* Mário Maestri  é historiador
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