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sábado, 5 de março de 2011

** Entrevista com Professora Luitgarde Barros - Revista SINAIS

 
Entrevista com a Professora Luitgarde Cavalcanti Barros1


SINAIS - Revista Eletrônica. Ciências Sociais. Vitória: CCHN, UFES, Edição n.08, v.1, Dezembro. 2010. pp. 276-289

Por Adélia Miglievich e Mauro Petersem Domingues

Nessa entrevista a Professora Luitgarde de Oliveira Cavalcanti Barros fala de sua trajetória acadêmica e profissional, de suas pesquisas atuais e do significado de mais de quarenta anos dedicados ao ensino e à pesquisa em Ciências Sociais. Nesse encontro a professora fala de alegrias, indignações e desilusões que marcam o mundo de quem luta pela educação.

Adélia – Professora Luitgarde, este ano a senhora se aposenta no Departamento de Ciências Sociais da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) onde foi professora de Antropologia. Um momento de vitória numa carreira digna e de muitos frutos; em nome do Conselho Editorial da Revista Sinais, parabenizo-a e, como sua ex-aluna, comovo-me em partilhar deste momento. Há palavras que descrevam estas quase quatro décadas de dedicação à universidade pública e ao magistério em especial?
Luitgarde – Dois professores de Universidade Pública se apresentando como meus ex-alunos, e me tratando com tanta consideração, já constitui uma resposta a sua pergunta. São quarenta e um anos de magistério e quarenta e quatro de pesquisadora, dedicados à formação de professores que hoje atuam em todos os níveis da educação neste país. Outro dia estava num Congresso da ABA, lançando um livro, quando outro professor, também lançando livro, se aproximou de mim e se apresentou como professor de Ciência Política no Piauí, também meu ex-aluno. Recebi uma carta de uma Diretora da Rede Pública de Ensino do Estado do Rio de Janeiro, relembrando os tempos de minha orientanda de pesquisa no IFCS, afirmando estar feliz em ser Diretora de Escola Pública, e mais: faz projetos com os alunos do Fundamental, aplicando métodos aprendidos “naqueles tempos”!

Adélia – Luit (o apelido que nos soa tão bem aos ouvidos...), em tempos de juventude, a senhora esteve na turma do atual IFCS/UFRJ do curso de Ciências Sociais que colou grau, nada mais, nada menos, no ano de 1968. O que significou para a senhora estudar naqueles anos na universidade federal?
Luitgarde – Significou que um dia, neste país, se viveu na Universidade Pública a grande utopia de que nosso papel era por o “conhecimento a serviço” da libertação e da dignidade dessa humanidade que sofre, intergeracionalmente, toda a miséria e a injustiça de um sistema que se alimenta do que saqueia de quem trabalha.

Adélia – Como eu não poderia deixar de perguntar, qual o significado de Professora Marina São Paulo de Vasconcellos em sua história de vida?
Luitgarde – Dona Marina representou a concepção de Universidade que se tinha naquela época. Ela sacrificou sua vida para que a UFRJ não aceitasse a intervenção ditatorial que derrubaria, depois do A I 5, a autonomia universitária. Dona Marina foi a Diretora a enfrentar o Coronel Turola, responsável pela repressão na UFRJ, afirmando-lhe em 1968, que não aplicaria punição a estudantes por ordem dele, porque só a Congregação determinava os atos da Administração acadêmica. Era professora muito digna, consciente de sua tarefa docente. Jamais colocou o usufruto do poder ou a ascensão pessoal à frente de sua ética, de seu papel no magistério.

Adélia – Fale-nos, então, de Arthur Ramos, mestre de Marina, cuja contribuição à renovação da Antropologia como disciplina é indiscutível, apesar de seu precoce falecimento.
Luitgarde – Arthur Ramos, mestre de Dona Marina, transmitiu-lhe a concepção de Universidade peculiar à grande maioria dos intelectuais que criaram a Universidade neste país, nas décadas de trinta e quarenta do século XX. Como catedrático da Cadeira de Antropologia na Universidade do Brasil, Ramos influenciou seus alunos e os estudantes em geral, principalmente quando participou com a UNE, do “Esforço da guerra”. Era por eles lembrado não só pelo vasto conhecimento em diferentes áreas do saber, como Antropologia, Psiquiatria, História, Psicologia, Arte, mas principalmente pelo caráter e pela crença de que a Antropologia Aplicada era elemento importantíssimo para a ascensão do povo brasileiro. Para ele, era principal responsabilidade do intelectual por o conhecimento a serviço da solução dos problemas da sociedade.

Mauro – Em seus estudos a senhora dedicou muita atenção ao catolicismo popular no Nordeste brasileiro. Que motivos a levaram a se dedicar a esse tema? Qual a importância de estudos como o seu para a compreensão do Brasil de hoje?
Luitgarde – Nascendo em 1941, vivi o tempo em que o Brasil tinha mais de 70% da população no campo, sendo caracterizado, pois como um país rural. A partir da década de cinqüenta, somos atingidos todos pela decisão governamental de, em cinco anos, passarmos por um abalo sísmico – social de executar um trabalho que deveria se concretizar em cinqüenta anos: “Erradicar precipitadamente a população dos campos, enfiando-as como bichos nas periferias, pântanos e favelas das cidades, para que o país pudesse registrar, no final da década de sessenta, mais de 70% da população na cidade. O Brasil seria, a partir de então, um “país urbano”. Grande vitória dos planejadores de viés técnico-ideológico cepalino! Num Congresso no IFCS – UFRJ em 1982, perguntei aos intelectuais promotores desta “apoteose”, presentes no evento: Os senhores pensaram em criar nas cidades que receberiam os erradicados, infra-estrutura para recebê-los? Planejaram moradias, hospitais, escolas para crianças, creches, escolas técnicas para transformar camponeses em operários capacitados para tarefas industriais, comerciais etc.? Criaram instituições de apoio para encaminhar esses transplantados para novos empregos? – NÃO!
Os nordestinos eram autônomos na cultura dos alimentos regionais, como feijão, milho, mandioca, frutas e legumes, além da produção artesanal de laticínios, farinha e de bens utilitários, plantio de algodão e mamona, além do criatório de pequenos animais. Onde essa população, longe de suas pequenas propriedades, iria produzir o próprio sustento, já que não estava habilitada para os empregos industriais que alardeavam os propagandistas dos 50 anos em cinco? Até mesmo os despossuídos de terra viviam sistemas de redes sociais, típicos da cultura camponesa, que foram destruídos quando foram lançados como manadas para serem “negociados” como animais no “mercado de trabalho” do Brasil urbano, na qualidade de, como falava Antonio Conselheiro, Malaventurados. As Ciências Sociais, quando iniciei minhas pesquisas sobre esse povo com suas crenças e lutas, não os consideravam objetos de estudo. A Terra da Mãe de Deus foi o primeiro trabalho de Pós-Graduação (Mestrado) defendido na Universidade brasileira, sobre as crenças, as concepções religiosas dessa gente. Já nos anos noventa, trabalhei a violência desenvolvida pelo sistema de dominação para que as camadas de proprietários e políticos controlassem aqueles mais de 70% da população abandonada naquele Brasil rural desprezível. Depois de uma pesquisa de mais de trinta anos, defendi a primeira Tese de Doutorado na Universidade sobre o fenômeno do cangaço. O que sobrou desses “erradicados” (seus descendentes, e aqueles que nunca param de chegar), constitui hoje interessante objeto de estudo das Ciências Sociais, meio de enriquecimento de muitas ONGS e de manipulação política de Coronéis Urbanos com seus métodos eleitorais de milícias (substitutos urbanos do cangaço rural) nos seus currais eleitorais da periferia, lugar do comércio bilionário de drogas – Sociologia e Antropologia da Exclusão, Políticas Públicas de Inclusão. Pensar que este Projeto Desenvolvimentista Cepalino derrotou o Projeto de Desenvolvimento Nacionalista defendido por Josué de Castro no importantíssimo livro “Geografia da Fome (O Dilema Brasileiro: Pão ou Aço)”! Neste texto o geógrafo brasileiro, cientista contra a fome, defendeu a fixação do camponês à terra através de uma reforma agrária, com abertura de estradas e centros de comercialização dos produtos, alfabetização em massa no país e incentivo à educação em todos os níveis nos mundos rural e urbano. Este seria o desenvolvimento representado pelo ”pão”, enquanto o desenvolvimento “democraticamente votado” pelo Congresso de deputados das altas camadas foi imposto a toda a população do país, sem um plebiscito. Afinal, as vítimas, como os favelados e camelôs “erradicados” nos Projetos de “limpeza urbana” dos “choques de ordem”, são “a ralé” da sociedade.

Adélia – A senhora adotou o Rio de Janeiro. Aqui chegou, estudou, trabalhou, casou, teve filhos, construiu sua carreira intelectual. Como foi que o Rio de Janeiro recebeu essa filha de Alagoas. Onde a senhora nasceu?
Luitgarde – Nasci em Santana do Ipanema, município encravado no sertão do “polígono da seca” em Alagoas. Ali vivi presencialmente o mundo do catolicismo popular, as romarias para o Juazeiro do Padre Cícero e as histórias do cangaço. Lampião, Corisco e todos os cangaceiros já eram memória dolorosíssima do sertão. Chegar ao Rio de Janeiro sobrevivente das perseguições assassinas dos governos udenistas preparando, desde o início dos anos sessenta, o Golpe de 64, deu-me uma nova dimensão do mundo. Mergulhei nas crenças do povo carioca de que o Cristo Redentor de braços abertos, Nossa Senhora da Penha no alto dum rochedo no subúrbio da cidade, Nossa Senhora da Glória do Outeiro, Santo Antônio no Largo da Carioca, São Sebastião, São Jorge e os Barbadinhos abraçavam e protegiam quem vivia na Terra Maravilhosa. Adquiri uma nova visão de mundo, entendendo que esse imaginário, fazendo parte do catolicismo popular, dava tanta força aos viventes do Rio de Janeiro, que me juntei a eles e busquei a Escola de Reabilitação do Rio de Janeiro (ABBR) e a Universidade do Brasil (Ciências Sociais na FNFi), como os lugares onde e de onde veria, como fisioterapeuta e cientista social, a nova vida que teria e faria longe da terra natal. Quarenta anos depois, comovidamente, recebi da Câmara Municipal o título de Cidadã Carioca Honorária. Toda minha infância e primeira juventude transcorreram na leitura dos romancistas nordestinos, principalmente Graciliano Ramos, para me conscientizar do que era ser Viventes das Alagoas. A partir de 10 de janeiro de 1963, quando aqui cheguei, persegui sempre o desejo de fazer parte dos Viventes do Rio de Janeiro.

Mauro – No Rio de Janeiro a senhora estabeleceu relações muito próximas com diversos artistas e intelectuais, desde sambistas a compositores de formação clássica. Fale-nos um pouco desse ambiente e da importância dele em sua vida intelectual:
Luitgarde – Os protetores dos cariocas me acolheram tanto, que tive a felicidade, desde os primeiros dias de minha chegada, até hoje, de ser acolhida, em todas as instâncias da vida, por pessoas muito generosas: Nelson Pereira dos Santos e sua esposa - minha insubstituível amiga Laurita Santana Pereira dos Santos; o Maestro Guerra Peixe; Ubirani do Cacique de Ramos e co-fundador do Fundo de Quintal; D. Mateus Ramalho Rocha (O maior pesquisador de História da religião do Rio de Janeiro, Diretor do Arquivo Beneditino do Brasil); Dra. Nise Magalhães da Silveira; Geraldo Vandré; Joffre Soares; Dona Marina São Paulo de Vasconcellos; Professoras Hortência de Magalhães Caminha (antropóloga) e Clícia Maia de Almeida (Primeira professora da escola pública de Volta Redonda); o jornalista Breno Pessoa; Professores Manuel Maurício de Albuquerque e José Américo Pessanha (Filósofo cassado pelo AI5 e criador da Coleção “Os Pensadores”). Através de meu irmão Emmanoel Cavalcanti, ator e diretor do cinema novo, convivi com os fotógrafos José Medeiros, Dib Lufth e os diretores de cinema Roberto Santos, Joaquim Pedro de Andrade, Bigode, e Olney São Paulo. Assisti as filmagens de “Como era Gostoso meu Francês” e “A Bagaceira”. Passaria muito tempo falando do que era sair da casa do Guerra Peixe, onde ele ficava com Baden Powell e Vinícius de Moraes preparando o disco “Os Afro-sambas”, para ir para o GREIPE da Penha, para o ensaio do Cacique de Ramos, muito antes de existir a quadra. Nesses 48 anos de Rio de Janeiro, todo um universo de vida transcorreu, onde vi e vejo o mundo se transformando, com a falta, cada vez maior, de tantos que já se foram. Procuro ir reconstituindo cada etapa da vida atual e futura com esses tantos ex-alunos que atualmente constituem a maior parte de meu universo de amigos. Hoje desfruto imensamente da companhia de amigos que fiz em minhas pesquisas por estes Brasis afora, como a turma do Grupo conselheirista do Professor Calasans, dos passeios fotográficos com meu amigo Evandro Teixeira (o maior fotógrafo brasileiro da atualidade); os estudiosos do cangaço, os jovens professores dos estudos afro, o pessoal da memória social, do pensamento social brasileiro, dos grupos de estudo da religião; a turma da história oral, os estudiosos do fenômeno Padre Cícero e, agora, nos últimos tempos, os grupos animadíssimos da comunicação e da ciência da literatura.

Adélia – Sua tese que virou livro “A Derradeira Gesta - Lampião e Nazarenos Guerreando no Sertão” gerou grande polêmica, não? Em seu julgamento, na época e hoje, por que algumas pessoas não queriam que se maculasse “Lampião”? Para além dos interesses de alguns cineastas, por exemplo, que sociedade, a seu ver, está por trás da mitificação de uma personagem como Lampião?
Luitgarde – O tema violência, ontem como hoje, numa sociedade tão acintosamente desigualitária e injusta, gera polêmica. Se não, como explicar tanto cientista social e tantos políticos e jornalistas “tentando glorificar as ações de brutalidade explícita”, com a exposição de corpos de “bandidos eliminados pela lei, choque de ordem” etc., num país onde a Constituição Federal não institui a pena de morte? Quantos “trabalhadores cidadãos” (uso a expressão apenas porque são moradores de “cidades”) são assassinados ou vilipendiados nessas “campanhas”, em muito semelhantes à “Campanha de Canudos”? Por trás de grupos de facínoras armados matando e vendendo droga, estão as “corporações empresariais e partidárias” que vivem do sangue de quem trabalha. No tempo de Lampião, era a mesma coisa. Ele era a encarnação, a realidade dantesca e grotescamente ornamentada da violência institucionalizada de um “país rural”, como hoje as máscaras, roupas de malha, disfarces mil e “representações” múltiplas dos bandidos são a realidade materialmente vivida pelas vítimas, ou vendida como ficção nos enlatados de TV. Eles encarnam a violência indescritível do mundo neoliberal, com donos de fábricas de armas vendendo a governos genocidas, o extermínio de povos, para que os “empresários” e as “corporações” desfrutem dos recursos naturais de qualquer país, submetendo seu povo a condições de miserabilidade reeditadas das primeiras formas de colonização. A tecnologia da destruição humana é o maior cabedal da civilização do século XXI, como o extermínio pelo cangaço se realizava com as “armas mais modernas do Brasil”, repassadas para Lampião, a preços de “monopólio comercial”, por seus protetores – grandes industriais, juízes, desembargadores, autoridades policiais, governadores e grandes fazendeiros e comerciantes. Os cineastas usam a liberdade de criação ficcional, enquanto os que desfrutam de fortunas herdadas de protetores de cangaceiro – Leia-se Indústria do cangaço – escondem a origem suja de sua riqueza.

Adélia – Eu cometerei uma inconfidência: lembro-me que eu estava em seu apartamento em Laranjeiras, na cidade do Rio de Janeiro, quando a senhora seguia para o seu primeiro pós-doutorado que derivou em “Arthur Ramos e as dinâmicas sociais de seu tempo”. Mas, a inconfidência é que, cercada de livros, a senhora me disse: “Agora, eu só vou ler o que eu gosto!”. Qual a relevância do pensamento social brasileiro em sua história intelectual? E, se me permite, qual o lugar do pensamento social brasileiro no Curso de Ciências Sociais hoje?
Luitgarde – Depois de ficar tanto tempo nadando no fundo lodoso da violência, tenho a felicidade de uma convivência diária e aprofundada com os setores da intelectualidade brasileira que constituem uma rede intergeracional de lutadores libertários. Estudo principalmente aqueles que pensaram a Educação como instrumento principal para se retirar a sociedade brasileira da miséria de uma ideologia colonialista, como escrevia Nelson Werneck Sodré, cujo centenário de nascimento se comemora neste ano de 2011. Além de acompanhar seus projetos, sua produção intelectual e as lutas que desenvolveram para tentar transformar o mundo numa sociedade menos injusta e exploradora, desfruto da companhia de suas criaturas como Fabiano e Sinhá Vitória, Doidinho, Moleque Ricardo, Essa Nega Fulô e todo o universo que anda na mesma marcha com o povo de Gogol, Dostoievski, Tolstoi, Andreiev, Checovi, Gorki, Eurípedes, Sófocles (falando de literatura russa e grega), minhas paixões de todas as idades.

Adélia – E a literatura? Como vê sua relação com as ciências sociais? Quem são seus escritores de cabeceira?
Luitgarde – Além desses de quem falei, leio muito os memorialistas, Euclides da Cunha e Machado de Assis, mas meu maior deleite é reler infinitas vezes Castro Alves. Na análise do desenvolvimento da sociedade brasileira, tudo que as Ciências Sociais não fizeram, até porque os cursos de humanidades são criados a partir de 1934 (São Paulo) e 1935 (Rio de Janeiro), está lá na literatura. O que você saberia das lutas pós-Revolução de 30 em Goiás (O Tronco), se não fosse Bernardo Ellis? E no Estado do Rio sem Maria Alice Barroso (Um Nome para Matar), em Minas Gerais sem Mário Palmério (Chapadão do Bugre) ou na Bahia sem Walfrido de Morais (Jagunços e Heróis), além de todos os escritores regionalistas? É importantíssimo também ver o papel de literatos como os poetas Ribeiro Couto e Manuel Bandeira, de Mário de Andrade e de tantos jornalistas no movimento editorial e na imprensa, lutando para se criar cursos de ciências humanas e um público leitor de estudos sobre as problemáticas nacionais.

Adélia – O que é o projeto que hoje a senhora desenvolve “Um Projeto de Brasil na Obra de Nelson Werneck Sodré”?
Luitgarde – Esse projeto se desdobrou nos estudos que atualmente desenvolvo, sob o título “Ofício de Escritor: comunicação e projeto de Brasil em Nelson Werneck Sodré”. Trato hoje da produção de Sodré em jornais e revistas, na longa militância comunicacional, desenvolvida de 1924 a 1999, portanto 75 anos de jornalismo.

Adélia – Quais as atividades previstas, neste ano, em homenagem a Nelson Werneck Sodré?
Luitgarde - A filha de NWS, Dra Olga Sodré, criou em Itu - SP, um Instituto destinado a promover o planejamento de comemorações. Ela relançará o livro que organizou e foi publicado pelo IPEA, sobre as idéias desenvolvimentistas do escritor. De minha parte, entreguei à EDUFAL/EDUERJ, para ser lançado este ano, o livro Nelson Werneck Sodré um perfil intelectual. Com uma equipe de sete pessoas, trabalho num catálogo com os verbetes dos cerca de três mil artigos publicados por ele em jornais e revistas. A INTERCOM, associação dos profissionais de comunicação, estará lançando reedição do livro mais famoso de Sodré, “A História da Imprensa”, numa mesa-redonda, no Congresso de setembro, no Recife. Estamos procurando diferentes instituições universitárias no sentido de que Departamentos de Ciências Sociais, Letras e Comunicação promovam eventos relativos ao centenário desse intelectual tão importante para o Pensamento Social Brasileiro, literatura e história.

Adélia – Há alunos de Ciências Sociais envolvidos em seu projeto de pesquisa sobre Werneck Sodré e nos vários desdobramentos?
Luitgarde – Um dos principais sentidos da pesquisa universitária é preparar pesquisadores que trabalhem em todos os campos do conhecimento. Por isto, jamais fiz uma pesquisa sem a presença de estudantes, desde a graduação. Da equipe que organiza os verbetes, dois membros são bolsistas de Iniciação Científica da UERJ e outro, já formado, que trabalha sob remuneração combinada, foi também bolsista na graduação. Os três trabalham NWS há dois e há quatro anos. Outra ex-bolsista de IC, Mariana Lívio Cavalcante Cabrita, concluiu Mestrado com a Dissertação “Nelson Werneck Sodré e a Imprensa”. Outro bolsista de IC, bacharel em Filosofia, cursando Licenciatura e trabalhando no Catálogo, Alex de Vasconcelos, acaba de ser aprovado para o Mestrado em História. Fará Dissertação sobre NWS e a Revista Civilização Brasileira.

Adélia – Que importância tem para o graduando de Ciências Sociais o envolvimento em pesquisas com seus professores? Como a senhora avalia hoje programas como o PIBIC e outros?
Luitgarde – Para o professor, é essencial ver seus alunos e orientandos se transformando em intelectuais que, aprendendo a pesquisar, aprendem sobre diferentes temas e, conjuntamente, a redigir relatórios, resumos para participação em eventos, enquanto treinam para apresentação em simpósios, congressos etc. Enfim, se preparam para a vida docente. Espero que eles sintam a mesma satisfação desfrutando dessa experiência, enquanto se autodisciplinam para a longa e interminável jornada de uma vida intelectual.

Adélia – Os temas relevantes a uma geração inteira como a de Werneck Sodré atraem hoje os estudantes de ciências sociais?
Luitgarde – Creio já ter respondido na pergunta anterior. Acrescento, porém, que tenho visto muito entusiasmo nas turmas que participam de Seminários e Simpósios que já organizei sobre Arthur Ramos, Josué de Castro, Nelson Werneck Sodré, Guerra de Canudos, Octávio Brandão, Nise da Silveira, e até mesmo o que foi a campanha “O Petróleo é Nosso”. A juventude está sempre sedenta de novos conhecimentos. Certos professores, não importa a idade, é que já se cansaram, estão com preguiça, desistiram, enfim, se acomodaram e não sentem mais o prazer de uma intensa vida de debates com as gerações que cruzam sua vida.

Adélia – A senhora militou na ANDES, correto? Qual é hoje sua visão da universidade brasileira e da própria Associação Docente?
Luitgarde – Assinei a ata de fundação da ADUFRJ, como participei de todas as lutas pelo fim da ditadura e o reingresso dos professores cassados. Fui a todas as passeatas no Rio e em Maceió, desde os meus 16 anos de idade. Lutei todas as lutas da ANDES na Constituinte de 1988. Fui tesoureira, como membro da Diretoria da ASDUERJ, do Congresso que transformou a ANDES em Sindicato, em 1989. Lutei, juntamente com os colegas da APSERJ (Associação Profissional dos Sociólogos do Estado do Rio de Janeiro) pela entrada da Sociologia no Ensino Médio na Constituição do Estado do Rio de Janeiro. Naquelas lutas ganhamos todas as nossas propostas, com pequenas alterações. Com a maioria dos corpos docente, discente e de funcionários, participei das lutas para se eleger os membros de direção dos órgãos universitários, desde o reitor. Desde o primeiro e o segundo reitores eleitos da UFRJ, acompanhei e vivi o desmoronamento de todas as utopias sobre o papel da Universidade na sociedade, quando iríamos “ensinar aos políticos que tinham corrompido a política” a ética das eleições universitárias. Exultava quando constatava que “só as esquerdas eram eleitas”, num processo em que expulsaríamos do poder decisório da Universidade, “toda a direita, poderosa na ditadura”. O tempo, porém, mestre dos mestres, encarregou-se de me mostrar que todo aquele que deseja o poder a qualquer preço não conhece limite ao que vai conceder à direita e à esquerda. Por isto todos os métodos da política partidária passaram a valer para a política universitária, principalmente promessas falaciosas de campanha. O maior exemplo é a promessa de abertura do restaurante dos estudantes da UERJ, que escuto nas campanhas de Reitor, desde 1987. Ao longo dos anos tenho vivenciado o processo pelo qual quase todos os reitores, supostamente eleitos como “representantes” do corpo acadêmico, vão-se transformando em “feitores”, executantes das ordens governamentais, quase sempre contrárias aos professores, estudantes e funcionários, confinados na “senzala”, sob o açoite da polícia sempre que se tenta falar das “velhas utopias sobre o lugar da educação”. Nos últimos anos, invasão de Universidade para expulsão de estudantes e professores tem sido naturalizada. O comportamento de grande maioria do corpo universitário é de apatia, enquanto muitos aderem ao “peleguismo”, outros ao individualismo feroz do “meu pedaço” e, para uma tristeza suportada sob protestos, assisto a alguns “vendilhões do templo” que privatizam, através de Fundações impostas pelo poder político nacional a “educação, vista e tratada como mercadoria lucrativa”. Enquanto o BNDES financia as ”empresas de ensino”, a Universidade Pública se afoga numa política de miséria salarial. Para os planejadores do país, “Educação é gasto”. Os educadores que significam investimento estão em ONGS, TVs, e nas Associações empresariais. Porém se algo me dá muita alegria, é constatar como o ANDES/SINDICATO faz parte dos pouquíssimos sindicatos que não se curvaram servilmente à onda pelega que está destruindo todas as conquistas sociais dos trabalhadores brasileiros. Você conhece trabalho mais digno do que o do professor? Quem prepara todos os médicos, engenheiros, enfermeiros, psicólogos, geógrafos, historiadores, antropólogos, sociólogos, cientistas políticos, odontólogos, jornalistas, professores – do ensino fundamental até o pós-doutorado, filósofos e todos os profissionais que mantêm a sociedade em funcionamento? Algumas perguntas não podem ser caladas:
1 – Por que um professor de ensino fundamental e do secundário, do qual se exige curso universitário, “é punido com cerca de R$ 600,00” sem vale transporte, vale refeição e auxílio moradia?
2 – Por que um professor Titular de Universidade Federal, após mais de trinta anos de trabalho, com todos os doutorados, pós-doutorados, livros e artigos publicados (não podem ser menos de uma centena), se aposentam ganhando cerca de R$ 12.000,00 enquanto um policial federal inicia a carreira com cerca de R$ 14.000,00 de salário?
3 - Quanto valem todos os cargos do legislativo, judiciário e a indecência dos cargos de confiança, dados sem concurso, roubando-se flagrantemente o acesso aos últimos níveis das carreiras de funcionários públicos concursados?
4 - Por que um “cobrador de impostos” (fiscal da Receita), substituto do “Contratador João Fernandes de Oliveira” ganha tantas vezes o salário de um professor da Rede Pública e tão mais do que os professores e pesquisadores universitários?
5 – Por que “um legislador” de qualquer nível ganha tantas vezes o salário de qualquer nível de professor?
6 – Por que a sociedade e os formadores de opinião, a grande mídia, se calam diante da vergonhosa proposta do salário nacional do professor não chegar a dois salários mínimos (sendo este valor repudiado por governadores)? Oficialmente, se registra que o professor no Brasil deve continuar na classe E (a mais baixa da classificação feita pelos “especialistas”).
- Parece que quanto mais a esquerda e a direita “legislam’ e “governam”, mais se evidencia o ódio à “classe de professor”, de qualquer nível.
- Parece que muitos dos “executivos”, “planejadores” e “governantes” já nasceram nos seus postos de poderosos, sem terem tido ou sido professores.
- Parece que o ódio que outro nazismo – o de Hitler, tinha às “raças inferiores”, o atual tem aos professores

Adélia – Quais são seus projetos para os próximos anos?
Luitgarde – Viver como sempre vivi, só que agora sem o vínculo institucional. Como será a vida de aposentada? Será meu novo aprendizado ou haverá outros chamados? De qualquer forma, há muitos livros na biblioteca esperando para serem lidos e muitas idéias na cabeça para serem transmitidas em artigos e livros.
Mauro e Adélia – Professora, agradecemos muito por mais essa chance de aprendermos um pouco mais com a senhora. Espero que esse breve relato de sua biografia intelectual tenha para nossos leitores esse efeito de grande inspiração que tem para nós. Muito obrigado!

1 Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros nasceu em Santana do Ipanema (1941). Antropóloga, estudou o Primário, Ginasial e Científico em Maceió. No Rio de Janeiro se graduou em Fisioterapia (ABBR), Licenciatura e Bacharelado em Ciências Sociais (UFRJ). Mestre e Doutora em Ciências Sociais (PUC-SP); Pós-Doutora em Antropologia (UNICAMP); Pós-Doutora em Ciência da Literatura (UFRJ). Professora Adjunta da UERJ; Professora Adjunta aposentada da UFRJ. Atua como pesquisadora desde 1967. Autora de: “Juazeiro do Padre Cícero: A terra da mãe de Deus”; “A Derradeira Gesta: Lampião e Nazarenos guerreando no sertão”; “Arthur Ramos e As Dinâmicas Sociais de Seu Tempo”. Organizadora e Co-Organizadora de sete livros; com mais de 100 artigos e capítulos de livros publicados no Brasil e no exterior. Contato: luitgarde@globo.com







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