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terça-feira, 17 de agosto de 2010

GEHB ** ARTIGO - Manchester Paulista: modernidade em Sorocaba

 
ARTIGO - [ 17/08 ]

Manchester Paulista: modernidade em Sorocaba

Rogério Lopes Pinheiro de Carvalho 
 
 
Notícia publicada na edição de 17/08/2010 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 2 do caderno A
A expressão Manchester Paulista, pensada como uma representação social, está relacionada a aspectos concretos e simbólicos

O episódio é relativamente conhecido e narrado pela historiografia sorocabana: em janeiro de 1905, anuncia-se a inauguração dos trabalhos para a construção de uma grande usina hidroelétrica, junto à cachoeira do salto de Itupararanga. Obra realizada pela Empresa Elétrica de Sorocaba. Alfredo Maia, superintendente da Estrada de Ferro Sorocabana, que, de todos os convidados para a solenidade de inauguração, foi o mais festejado pelo fato de ter revitalizado a Sorocabana. Em um hotel da cidade, em meio às comemorações, Maia profere um discurso que se tornaria célebre. Mencionando especificamente a situação da estrada de ferro, afirma que se esta continuasse a sua evolução, Sorocaba, em pouco tempo, se tornaria uma Manchester Brasileira.
Esse discurso soou como uma música para os ouvidos da burguesia sorocabana, particularmente pela associação da cidade com a famosa Manchester, centro industrial inglês. Essa imagem é que vai ficar para a posteridade, amplificada ao longo de boa parte do século XX. Separada do contexto em que foi proferida, a expressão Manchester Brasileira é trocada pela mais modesta Manchester Paulista, relacionada ao desenvolvimento industrial da cidade, especificamente do parque têxtil. É bom que se diga que Alfredo Maia não inventou o costume de chamar de Manchester as cidades que passavam por um processo de industrialização, muitas cidades no Brasil receberam essa alcunha. E no caso de Sorocaba, a relação com Manchester já estava no ar por assim dizer, ao longo da década de 1890, mencionada em mais de uma ocasião na imprensa local, precisamente em decorrência da ampliação fabril dessa década, com a fundação das fábricas Votorantim, Santa Rosália e Santa Maria, Contudo, o discurso de Maia acabaria funcionando como um marco simbólico fundador da representação da cidade como Manchester Paulista.
O importante no estudo da história de Sorocaba é pensar a expressão Manchester Paulista como uma espécie de imagem-síntese do processo histórico de modernidade-modernização por que passa a cidade desde, pelo menos, o último quartel do século XIX.
Modernidade é um conceito complexo e polissêmico, mas em seu sentido mais profundo e abrangente está relacionado ao desenvolvimento e espraiamento da relação social capitalista pelo mundo. No Brasil, a interiorização dessa relação social começa a ocorrer, de maneira orgânica, em diferentes locais, a partir da segunda metade do século XIX.
A expressão Manchester Paulista, pensada como uma representação social, está relacionada a aspectos concretos e simbólicos. A concreticidade se refere à industrialização da cidade que estabelece a referida interiorização orgânica das relações capitalistas no bojo da sociedade sorocabana. Quer dizer, estabelecimento de uma burguesia industrial, formação do proletariado com a consequente luta de classes. Esse processo tem desdobramentos na história urbana da cidade. Assim, entra em pauta a questão dos melhoramentos urbanos, no caso de Sorocaba, a implantação do serviço de água e esgotos, a eletricidade, os bondes elétricos. Nesse sentido, um acontecimento relevante, pleno de significados é a formação em 21 de junho de 1911, da empresa São Paulo Electric Company, uma subsidiária da Light & Power, que seria responsável a partir de então pelos serviços de eletricidade e bondes elétricos em Sorocaba. Portanto, a São Paulo Electric está intimamente ligada à história urbana de Sorocaba, pelo menos até meados do século XX. Sua constituição, formada por capitais internacionais, tem a ver com um momento de expansão do capital pelo mundo, o que alguns historiadores denominam de Belle Époque [Bela Época] e outros chamam de fase imperialista do capitalismo.
Os aspectos simbólicos da modernidade se constituem como uma complexa expressão dialética das transformações materiais. Assim, Manchester Paulista significa progresso, ou seja, de uma dada perspectiva, avanço das relações capitalistas, inovações tecnológicas; interiorização, enfim, de características da civilização europeia, que não significava outra coisa senão adotar um estilo de vida burguês. Um discurso comum à época, veiculado pelos setores dirigentes da sociedade brasileira e amplificado pela grande imprensa, era a necessidade de acertar os relógios atrasados do país com a modernidade europeia.
De uma perspectiva historiográfica crítica se coloca o imperativo de desconstruir esse discurso, apontando seus impasses e contradições. Pois o que se tem efetivamente é o estabelecimento de uma modernização conservadora e excludente, que deixava ao largo boa parte da população. Esta, ligada às classes populares, tinha inclusive suas práticas estigmatizadas, denominadas como hábitos roceiros que deveriam ser eliminadas do espaço da cidade, pois não eram condizentes com a modernização desejada.

Rogério Lopes Pinheiro de Carvalho, doutor em História Social e Coordenador interino do curso de História da Uniso. (rogeriolpcarvalho@gmail.com)
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