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terça-feira, 15 de junho de 2010

GEHB ** Capítulos de História do Império - Sérgio Buarque de (Prosa e Verso, O Globo, 12/06/2010)

Monumento inacabado

Livro reúne manuscritos inéditos de Sérgio Buarque de Holanda sobre o Império

Guilherme Freitas
Diz muito sobre o perfeccionismo de Sérgio Buarque de Holanda o fato de ele considerar que "Do Império à República", estudo modelar sobre a decadência da monarquia publicado em 1972, precisava ser melhorado. Conhecido pelo esmero com que escrevia — e reescrevia — seus textos, ele trabalhou por anos na nova obra, mas ao morrer, em 1982, deixou-a inacabada, com cerca de 150 páginas datilografadas.
Este material é reunido agora pela primeira vez em "Capítulos de história do Império" (Companhia das Letras, organização de Fernando A. Novais), que será lançado, junto com uma nova edição de "Visão do Paraíso — Os motivos edênicos no descobrimento e colonização do Brasil" (Companhia das Letras), nesta segundafeira, às 16h30m, na Biblioteca Nacional, com debate reunindo os historiadores Evaldo Cabral de Mello, Ronaldo Vainfas, Laura de Mello e Souza e Lilia Schwarcz.

Em "Capítulos de história do Império", Sérgio Buarque desenvolve um dos temas centrais de "Do Império à República", editado originalmente como parte da coleção "História geral da civilização brasileira", que abordou os períodos colonial, imperial e republicano em 11 volumes coordenados por ele e pelo historiador Boris Fausto nas décadas de 1960 e 1970. Naquela obra, o autor critica o uso feito por D. Pedro II do poder moderador e atribui a seus excessos a derrocada do regime (ficou famosa sua descrição do imperador como tendo "lastro demais para pouca vela"). Os textos reunidos no novo livro mostram que essa premissa conduziria a uma análise ampla da história política do Império, dividida em três partes: a primeira, mais desenvolvida, tem 104 páginas e quatro capítulos ("Para uma préhistória do Império no Brasil", "A nação e os partidos", "Entre a Liga e o Progresso" e "Por graça de Deus..."); a segunda tem 14 páginas intituladas "Crise do regime"; e a terceira tem 37 páginas de anotações.
Clássico "Visão do Paraíso" também ganha nova edição
Organizador de "Capítulos de história do Império", o historiador Fernando Novais comemora o resgate de uma obra que, como escreve na introdução à nova edição, comprova que o trabalho de Sérgio Buarque se aproxima do modelo ideal de reconstrução histórica, por "inserir o particular no geral, sem perder sua especificidade; mobilizar o geral para a compreensão do particular, sem dissolvê-lo no seu interior".
— A publicação de "Capítulos de história do Império" tem enorme importância, porque "Do Império à República" não teve na sua época a repercussão merecida. A nova edição, com um posfácio de Evaldo Cabral de Mello, que faz uma leitura vertical do estudo, possibilita uma análise jamais feita sobre esse aspecto da obra de Sérgio Buarque — diz por telefone Novais, pesquisador do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
Professora do departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo (USP), Lilia Schwarcz diz que o livro inacabado ilumina o método de trabalho de um historiador que sempre preferiu delinear problemas a propor soluções: — Este livro mostra o trabalho de um pesquisador minucioso, que abriu caminho para uma história cultural e das mentalidades no país. Um escritor muito cioso de pequenos detalhes que iluminam grandes estruturas. Um intelectual que não se contenta apenas com estruturas politicas e explora diversos ângulos da historiografia — diz Lilia por telefone.
Um dos maiores exemplos desta busca por novos ângulos da história, aponta Lilia, está em "Visão do paraíso", reeditado agora. Publicado em 1959, num momento em que predominavam na academia nacional análises históricas e sociológicas de viés economicista, o estudo concentrava-se num campo até então nunca explorado: o imaginário dos colonizadores.
— Sérgio Buarque nos deixou um exemplo de pioneirismo. Em "Visão do Paraíso", ele trata de uma representação construída num determinado período, mas com a qual convivemos até hoje: a ideia de uma natureza edenizada, de um lado, e de uma humanidade pervertida, de outro — observa Lilia, organizadora da edição comemorativa dos 70 anos de "Raízes do Brasil" lançada pela Companhia das Letras em 2006.
Autor de um dos posfácios da nova edição de "Visão do paraíso" (o outro é de Laura de Mello e Souza), Ronaldo Vainfas destaca em seu texto a influência da historiografia alemã e italiana sobre o pensamento de Sérgio Buarque, em detrimento da francesa, cuja presença na obra seria apenas "modesta".
Vainfas lembra que o livro — "muito elogiado, mas pouco lido, citado ou discutido" em seu tempo — foi revalorizado por uma série de estudos desenvolvidos no Brasil a partir da década de 1980 sobre a história das mentalidades.
Professor do departamento de História da Universidade Federal Fluminense (UFF), Vainfas destaca o exemplo deixado por Sérgio Buarque não só para os historiadores, mas para todos os intelectuais dedicados ao estudo dos temas brasileiros.
Em entrevista por e-mail, descreveo como "um intelectual que demonstrou que a produção do conhecimento é inseparável da liberdade de pensamento e que nunca se deixou levar por modismos e dogmatismos de nenhum tipo": — A maior lição de Sérgio Buarque, além da excelência da vasta obra, em si mesma, é a de que o trabalho do historiador não deve se confinar nesse ou naquele campo específico, apesar da crescente especialização que hoje marca a pesquisa histórica no Brasil e no mundo.
Sérgio Buarque fez história socioeconômica, cultural, social e política sem nenhum parti pris de que esta ou aquela era melhor ou explicava melhor a sociedade brasileira. Sérgio Buarque fazia história e ponto.
"DESDE QUE FOI PRECIPITADA A maioridade legal do segundo imperador, porque até pouco antes faltaram no Brasil condições para que se formassem governos de partido, começou a suscitar-se a crença de que na origem de todos os vícios de nosso sistema político se achavam as contendas entre as facções e a acirrada disputa pelas posições, a animarem constantemente o vaivém das situações movediças.
Essa crença que, em épocas mais tardias, irá parecer de todo alheia aos verdadeiros princípios democráticos, não constituía então uma novidade nem era especificamente brasileira. Até num país como os Estados Unidos, que, para muitos dos nossos homens públicos, oferecia o modelo de um regime liberal e da autêntica democracia, havia prevalecido durante longo tempo o ponto de vista de que as competições políticas são intrinsecamente imorais e de que uma sociedade perfeita há de ser feita de unidade e consenso, guiados pelos chefes eleitos da nação. O tempo, no entanto, já tinha varrido ali e em muitas partes essa confiança sagrada nas virtudes da unanimidade e do consenso, relegando-as cada vez mais para o rol das velharias decrépitas, só acariciada ainda pelos absolutistas empedernidos.
No Brasil, essa animosidade contra a existência atuante dos partidos políticos, que chegará a andar em moda nas duas décadas imediatas à maioridade, quando assume, não raro, matizes liberais, só reaparecerá depois entre uns poucos que abertamente hão de optar pelos sistemas autocráticos e militaristas. São exceção os casos como o de um inimigo confesso de tais sistemas que, ainda em 1877, quando a monarquia, entre nós, começa a beirar o colapso, dá respostas negativas a estas perguntas que ele mesmo se propõe: "Deveras serão necessários os partidos políticos em uma sociedade democrática? Serão um bem ou um mal? Serão legítimos ou ilegítimos?"
Trecho do livro "Capítulos de história do Império", de Sérgio Buarque de Holanda

Fabrício Augusto Souza Gomes

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