Este espaço é reservado para troca de textos e informações sobre a História do Brasil em nível acadêmico.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

** Bandeirantes da língua portuguesa

 
Bandeirantes da língua portuguesa
Língua que desembarcou das
caravelas e se espalhou pelo país
era, originalmente, o português 
caipira, conta Ataliba Teixeira de 
Castilho, coordenador do Projeto de 
História do Português de São Paulo
(reprodução)

Bandeirantes da língua portuguesa

14/4/2011
Por Mônica Pileggi
Agência FAPESP – O Projeto de história do português paulista (Projeto Caipira), coordenado pelo professor Ataliba Teixeira de Castilho, mobiliza pesquisadores de diversas instituições com o objetivo de resgatar a história da língua trazida pelos portugueses que desembarcaram na Baía de São Vicente, em 1532.
Do litoral paulista, a língua se espalhou pelo país por diversas vertentes. O Temático, que reúne mais de 200 pesquisadores – 60 deles em São Paulo –, estuda, em uma espécie de "bandeirantismo", os caminhos percorridos pelos falantes da língua portuguesa e sua transformação até chegar à língua falada hoje.
A 12ª edição do Seminário do Projeto de História do Português Paulista termina nesta sexta-feira (15/4) no Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP). O encontro procura avaliar os resultados obtidos pelo projeto apoiado pela FAPESP na modalidade Auxílio à Pesquisa – Projeto Temático, concluído no fim de 2010.
Castilho foi professor titular da USP, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Atualmente, aos 74 anos, é professor colaborador voluntário na Unicamp.
O pesquisador presidiu a Área de Letras e Linguística da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) (1987-1990), a Associação Brasileira de Linguística (1983-1985) e a Associação de Linguística e Filologia da América Latina (1999-2005).
Entre seus livros recentes estão Nova Gramática do Português Brasileiro (Contexto, 2010), Gramática do Português Culto Falado no Brasil (Editora da Unicamp, 2008), Descrição, História e Aquisição do Português Brasileiro (Pontes, 2007), Gramática do Português Culto Falado no Brasil (Editora da Unicamp, 2006).
 
Agência FAPESP – Professor Castilho, como surgiu o Projeto Caipira?
Ataliba Teixeira de Castilho – O projeto de pesquisa teve origem em 1998, durante o primeiro seminário que fizemos sobre o tema. Participaram professores brasileiros especializados em linguística histórica. Pensei em convidá-los para o projeto de modo que eles pudessem transformar aquele projeto estadual em nacional. E deu certo.
Agência FAPESP – E por que fazer esse projeto em São Paulo?
Castilho – Porque a língua portuguesa começou a ser implantada em 1532, em São Vicente, aqui no Estado de São Paulo. Foi o primeiro povoamento, quando os portugueses decidiram explorar de fato o território. Isso não ocorreu quando Pedro Álvares Cabral chegou à Bahia e partiu em seguida para as Índias. Durante 32 anos o território descoberto não foi colonizado ou ocupado. Foi em 1532, em São Vicente, que o Brasil realmente começou.
Agência FAPESP – Então, foi a partir do Estado de São Paulo que ocorreu a penetração da língua portuguesa pelo país?
Castilho – Sim, foi onde tudo começou. Depois de São Vicente vieram Santo André, São Paulo e Santana do Parnaíba. Foi por essas quatro cidades que começou a penetração do português no Brasil – com exceção do então Norte (Grão Pará e Estado do Maranhão), que era praticamente outro país e onde a colonização começou entre os séculos 17 e 18. Devido à proximidade do rio Tietê, o movimento do bandeirismo partiu de Santana do Parnaíba e começou a expansão da língua para o Mato Grosso. De Santana do Parnaíba, os bandeirantes também foram até o Peru, atrás das minas de prata, percorrendo um caminho construído pelos índios Peabirus. Como lá a colonização foi espanhola, o português não se implantou. De São Miguel Paulista, os bandeirantes levaram o português para Minas Gerais, subindo por Itaquaquecetuba e Taubaté, atrás do ouro.
Agência FAPESP – A partir do Estado de São Paulo ocorreu a penetração da língua portuguesa pelo país por esses caminhos?
Castilho – Sim, mas no fim do século 18 surgiu um terceiro caminho: o dos comerciantes que andavam com mulas. Esses tropeiros levaram o português até o Uruguai, que no tempo do império era uma província brasileira, a Cisplatina. Chegaram à Colônia do Sacramento, cidade uruguaia criada por tropeiros de Sorocaba. Tudo isso foi movimento dos paulistas. Quando São Paulo se desenvolveu mais do que todas as outras, tornou-se a maior capitania do Brasil, que inclui o que hoje são estados independentes. O termo capitania foi substituído por província e depois por estado. Então, pode-se ver que ao estudar que língua portuguesa chegou aqui e como ela se desenvolveu e mudou, conhecemos a própria história do português brasileiro.
Agência FAPESP – Uma dimensão que está espelhada no número de pesquisadores reunidos pelo projeto coordenado pelo senhor.
Castilho – Tem que ser assim, é preciso reunir muitos especialistas. Só no Estado de São Paulo somos em 60 pesquisadores, das três universidades públicas e também da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Esse grupo maior também fez uma espécie de bandeirismo (risos). Hoje, o Projeto de História do Português Brasileiro (PHPB) tem cerca de 200 pesquisadores integrados em 11 equipes regionais, cada uma trabalhando com questões locais.
Agência FAPESP – Em todo o Brasil?
Castilho – Não, pois ainda não temos ninguém no Norte. Mas queremos ter colaboradores nessa região.
Agência FAPESP – Poderia dar alguns exemplos de contribuições do projeto para o conhecimento da história do português brasileiro?
Castilho – Esse projeto trata do conhecimento de como o português se implantou e de como ele mudou. A grande pergunta, como diz um colega nosso, é: "Que língua foi aquela que saiu das caravelas?". Sabemos hoje que foi o português médio, um momento da história do português europeu. E aqueles navegadores que saíram das caravelas quando crianças aprenderam a falar essa modalidade, o português arcaico médio, que vai de 1450 até 1530. Essa é justamente a base do nosso português. Temos um grupo em nosso projeto que estuda como foi esse português médio para poder descrevê-lo. Nesse grupo está minha mulher, Célia Maria Moraes de Castilho, que também é linguista e leu o que se publicou dos inventários e testamentos, do século 16 até 1920, que estão guardados no Arquivo Público do Estado de São Paulo. Para entender como se deu o espalhamento desse português a partir de São Paulo, outro grupo, coordenado pelo professor Manoel Morivaldo Santiago Almeida, da USP, estudou como foi o deslocamento da língua pelo Tietê, levado pelos bandeirantes. Esse grupo verificou, por exemplo, que no Mato Grosso se guarda até hoje pronúncias do português médio arcaico. Em vez de dizer chão, eles dizem "tchon". Palavras com "ch" são ditas com "tch", e "x" é dito "xê". Então temos "tchapéu" ou "tchuva". Eles não têm o ditongo nasal "ão", e sim a vogal nasal "on", como era no português antigo. Estou falando de fonética, mas há também outras características gramaticais que se conservaram lá.
Agência FAPESP – E isso até na capital, Cuiabá?
Castilho – Sim. E é no meio familiar que você surpreende isso, essas pronúncias todas do português de antes.
Agência FAPESP – Como se desenvolveram aqui em São Paulo o português popular e o português culto?
Castilho – A professora Ângela Cecília Souza Rodrigues, da USP, é a responsável pelo projeto sobre o português não padrão, que é o dos analfabetos e de pessoas que aprendem em casa. O objetivo é documentar e achar nos documentos traços desse português popular.
Agência FAPESP – Ela já obteve resultados?
Castilho – Ela começou de trás para frente, descreveu primeiro o que tem hoje no português popular. Não é só paulista que fala o português popular, pois o estado atraiu gente de todos os lados. A professora Ângela encontrou nos primeiros documentos de traços linguísticos a questão da concordância. Ela observou que muito da concordância que hoje se considera padrão popular era usada pelos portugueses naquele tempo, como em "os menino chegou", por exemplo. Isso não foi uma criação daqui não, estava lá. Outro grupo de pesquisa estuda a formação do padrão culto, a história do português ensinado nas escolas. As professoras Marilza de Oliveira (USP) e Maria Célia Lima-Hernandes (USP) estudam esse ponto, de como se formou o português culto em São Paulo.
Agência FAPESP – O que elas descobriram?
Castilho – O que se descobriu é que até algum tempo atrás o português culto era idêntico ao português europeu, mesmo aqui em São Paulo. Só se começou a falar o português culto bem tardiamente. No começo era um povão, indistinto, que falava o português popular. Foi preciso surgir escolas para que aparecesse essa outra variedade. Aqui em São Paulo foi muito importante a fundação da Faculdade de Direito, em 1827, que trouxe gente do Brasil inteiro. Na mesma época, começou a haver um interesse maior em ler jornais, escrever e ler poesias, romances. Era o Romantismo. Pois esse grupo de pesquisa analisa esses documentos e observa que reação as pessoas que vinham para cá tinham em relação à língua falada aqui, que era o caipira.
Agência FAPESP – E como se desenvolveu o português culto?
Castilho – Do início do século 19 até a instituição da USP, em 1934, foram criadas várias escolas isoladas, pois não havia a concepção de universidade como existe hoje. No século 19, o português culto era imitação exata do português culto europeu. Em 1922, com o movimento modernista e o crescimento da comunidade de São Paulo, não se considerava mais que o português culto era o português dos portugueses, nós nos descolamos disso. Ainda em 1920, 1930, tínhamos certa sensação de nação colonizada. Quando isso passou é que nos desgarramos do português escrito culto europeu. E aí os modernistas tiveram um papel muito importante, sobretudo Mário de Andrade. Ele criou biblioteca, departamento de cultura, fundou a revista do Arquivo Municipal. Houve uma grande agitação cultural e as pessoas foram assumindo com mais naturalidade a forma como elas escreviam.
Agência FAPESP – Hoje, a característica caipira é muitas vezes encarada de forma depreciativa. Naquela época ocorria a mesma coisa?
Castilho – Caipira não era uma palavra depreciativa, era a designação do português falado pelos paulistas. Depois, com o desenvolvimento da cidade de São Paulo como centro cultural, aí sim ficou muito assemelhado ao português popular, de pessoas sem escolaridade. E como a cidade cresceu demais, esse português foi empurrado para o interior do estado e ali ficou.
Agência FAPESP – Em uma entrevista, o senhor fala sobre o uso da internet pelas crianças e diz que elas passaram a escrever mais, o que seria positivo. Mas, ao mesmo tempo, a rede não incentiva a grafia errada?
Castilho – Sim, as crianças passaram a escrever mais e, sobretudo, não por que o professor manda. Para nós, linguistas, essa questão do escrever errado ocorre quando uma pessoa escreve e a outra não consegue entender. No mais, é uma variedade que você está jogando. O que é escrever errado? É o português não culto? A internet não atrapalha, ela ajuda e resolve um problema de ortografia, no caso de uso de abreviações, como é tudo abreviado. A ortografia é convenção, ela vai atrás da língua com o seu dinamismo. Eu vejo muito o lado positivo. Como linguistas nos perguntamos o tempo todo como é que a mente humana conseguiu criar essa variedade louca de expressões, essa enorme complexidade. Essa é a nossa grande questão.

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Atividade nos últimos dias:
    **Este grupo foi criado com o intuito de promover releituras da HISTÓRIA DO BRASIL e tão-somente  HISTÓRIA DO BRASIL.  Discussões sobre a situação atual: política, econômica e social não estão proibidas, mas existem outros fóruns mais apropriados para tais questões.

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quarta-feira, 13 de abril de 2011

** Biblioteca Fazendo História: o bom negócio da Inconfidência

 




E mais...

Edição de abril nas bancas

No mês que se lembra de Tiradentes, saiba que ele não era um homem de poucas posses, mas muito abastado, com fazendas, gados e escravos. [ leia mais ]

Museus brasileiros bem no ranking

De acordo com a publicação inglesa "The art newspaper", instituições e exposições brasileiras figuram entre os mais visitados no ano de 2010. Brasil se destacou na categoria arte contemporânea e nas mostras temáticas. [ leia mais ]

Relíquias da antiguidade

Museu Histórico Nacional tem maior coleção de moedas greco-romanas da América do Sul. Catálogo com as 1.750 peças do Sylloge Nummorum Graecorum será lançado em maio. [ leia mais ]
Pergunte ao historiador
Siga a RHBN no Twitter e envie suas dúvidas históricas pela rede social.[ leia mais ]
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** Seminário Internacional História do Tempo Presente

 
O Programa de Pós-Graduação em História da Universidade do Estado de
Santa Catarina informa e convida a realização do I SEMINÁRIO
INTERNACIONAL HISTÓRIA DO TEMPO PRESENTE.


O evento ocorrerá entre 07 e 09 de Novembro de 2011, na UDESC, em
Florianópolis (SC).


Cronograma básico:
Envio de propostas de comunicações: 15 de abril a 15 de junho de 2011
Divulgação dos trabalhos aceitos: 01 de julho de 2011
Data-limite para envio dos textos completos: 01 de setembro de 2011


Inscrições: O pagamento para inscrever trabalhos nos Simpósios
Temáticos ocorrerá após a aprovação dos mesmos pelos/as
coordenadores/as.
R$ 50,00 sócios ANPUH
R$ 75,00 não sócios ANPUH
(isenção do pagamento para professores de educação básica da rede
pública de Santa Catarina)


Informações em www.seminariotempopresente.faed.udesc.br


Contato: seminariohtp@gmail.com
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terça-feira, 12 de abril de 2011

** "Regulamentação profissional avança" e "Anpuh/MS na Semana dos Povos Indígenas da UCDB"

 
 "Regulamentação profissional avança" e "Anpuh/MS na Semana dos Povos Indígenas da UCDB"
Regulamentação profissional avança
PL 368/2009, que regulamenta a profissão de Historiador, encontra-se na Comissão de Educação do Senado.
(Leia mais em http://anpuhms.org/index.php/noticias/96-regulamentacao-profissional-avanca)




Anpuh/MS na Semana dos Povos Indígenas da UCDB
Seminário "A Universidade e os Povos Indígenas no MS: história e saberes" conta com o apoio da da Associação Nacional de História - Seção de Mato Grosso do Sul (Anpuh/MS).



Assessoria de Comunicação Anpuh/MS
Joana Moroni

Anpuh/MS
Associação Nacional de História - Seção de Mato Grosso do Sul
(67) 3312.3447


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** NOTICIAS ANPUH-PR

 
Veja em Noticias ANPUH-PR - http://www.pr.s2.anpuh.org/

Curso: Noções de Arquivística e gestão de documentos em arquivos históricos - CDPH/UEL

Curso: Defesa Nacional -  UF Sergipe

Curso: Especialização em História Cultural: UFG

Chamada de artigos: Revista Perseu

Lançamento hoje: Modernos entre Modernos.

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segunda-feira, 11 de abril de 2011

** Empatia no olhar

 
Empatia no olhar
O Brasil no olhar de William James 
mostra perspectiva singular sobre a 
sociedade brasileira do século 19
apresentada em desenhos, diários 
e cartas do filósofo norte-americano
(reprodução)


Empatia no olhar

11/4/2011
Por Fábio de Castro
Agência FAPESP – Em 1865, uma expedição liderada pelo cientista natural suíço Louis Agassiz (1807-1873), da Universidade de Harvard (Estados Unidos), percorreu o Brasil durante 15 meses, com objetivos científicos.
Entre os coletores voluntários que participaram da expedição estava um estudante de medicina de 23 anos de idade, William James (1842-1910), que mais tarde se tornaria um dos mais influentes pensadores norte-americanos, conhecido principalmente como um dos formuladores da filosofia do pragmatismo.
Organizado pela professora Maria Helena Toledo Machado, do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP), o livro O Brasil no olhar de William James aborda a grande quantidade de escritos e desenhos produzidos pelo jovem James durante a expedição.
Diferentemente dos registros de viagem típicos do período, o material deixado por James revela um viajante sensível e empático, capaz de captar perspectivas singulares da natureza e da sociedade do Brasil.
O livro foi lançado no dia 7 de abril no Centro Universitário Maria Antônia da USP, durante a abertura da exposição Rastros e raças de Louis Agassiz: fotografia, corpo e ciência, que reúne uma série de fotografias obtidas durante a expedição sobre tipos raciais brasileiros.
Lançado originalmente nos Estados Unidos em edição bilíngue, em 2006, pela editora da Universidade de Harvard com o título Brazil through the eyes of William James, o livro é resultado de uma pesquisa iniciada por Machado em 2003, nas bibliotecas e arquivos de Harvard, com apoio da FAPESP na modalidade Bolsa de Pesquisa no Exterior.
A pesquisa teve continuidade em 2004 com apoio institucional do David Rockefeller Center for Latin American Studies, da Universidade de Harvard, no qual a cientista permaneceu como Brazilian Visiting Fellow, com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Em 2006, a pesquisadora teve nova Bolsa da FAPESP em Harvard.
O livro foi acolhido com simpatia no ambiente acadêmico norte-americano, especialmente entre especialistas na obra de William James e interessados em filosofia, história das expedições científicas, ideias raciais e história das ciências.
"A documentação produzida por James durante a expedição é notavelmente original, em relação à gama de escritos de viagem do século 19. Enquanto a maior parte dos viajantes tem uma postura de distanciamento ao mesmo tempo etnocêntrica e paternalista, pressupondo uma ausência de significado social nos países exóticos, ele é extremamente empático e reflexivo", disse a autora à Agência FAPESP.
A perspectiva do jovem James também contrastava de forma impressionante com o viés expresso pela própria expedição. Agassiz, fundador do Museu de Zoologia Comparada da Universidade de Harvard, tinha a intenção de coletar espécimes de peixes e dados sobre sua distribuição geográfica em várias partes do Brasil, a fim de contestar a teoria da evolução de Charles Darwin, à qual ele se opunha frontalmente.
Durante a viagem – conhecida como Expedição Thayer, por ter sido financiada pelo magnata Nathaniel Thayer –, Agassiz se interessou também pelo estudo da população, tomando a iniciativa de documentar tipos raciais brasileiros por meio da fotografia a fim de avaliar resultados da miscigenação. O trabalho é um dos principais registros fotográficos do Brasil no século 19.
"Agassiz era um criacionista, e o enfoque científico e racial da expedição, um tanto retrógrado. Mas isso não afetou a visão de James. Altamente sensível, ele desenvolveu uma característica que defini como 'empatia' e que se manifestaria mais tarde ao longo de toda a sua obra. Ele mostrou uma grande capacidade de entender o mundo a partir da visão do outro. Em vez da abordagem paternalista, 'piedosa', comum entre os viajantes da época, ele se envolvia de fato com as pessoas e conseguia compreender as diferenças profundas dessa sociedade desconhecida", afirmou Machado.
Miscigenação
De acordo com a historiadora, as posições mostradas por James em seus registros da expedição se refletiriam ao longo de toda a vida do pensador. Mais tarde, ele lutaria contra o imperialismo, defenderia o darwinismo, iria se tornar adepto do relativismo – o que lhe renderia muitas críticas – e desenvolveria a noção de fluxo de pensamentos.
"Todas essas ideias são coerentes com sua maneira de abordar a realidade, manifesta durante passagem pelo Brasil. Em seus escritos, ele desconstrói a visão do exótico, do outro incompreensível, do estrangeiro alheio aos códigos da vida social", disse Machado.
A pesquisadora conta que pretende agora trabalhar na catalogação completa das fotos da Expedição Thayer, a fim de produzir um livro sobre toda a coleção fotográfica de Agassiz.
"A ideia é incluir todos os aspectos da expedição, mas com foco na coleção fotográfica, que é muito significativa. O problema da raça acabou se tornando a faceta mais importante da expedição e quero partir do acervo fotográfico para investigar como essa questão foi pensada por Agassiz e como ele enxergava o Brasil como o lugar ideal para estudar a suposta degeneração racial da miscigenação", disse. 
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** O despreparo dos pracinhas e do Brasil

 
O despreparo dos pracinhas e do Brasil 

JOÃO BARONE


Ao desprezar a história da FEB na Segunda Guerra, o Brasil seguirá despreparado para assumir seu lugar, seja lá qual for, onde quer que seja



Entre os conhecedores da incrível saga que foi a participação do Brasil na Segunda Guerra, existe uma história que é exemplo dos muitos paradoxos que envolvem o tema. Quando os ex-combatentes eram abordados por jornalistas ou documentaristas buscando algum fato sobre a participação do Brasil na guerra, começavam a entrevista com uma pergunta ao entrevistador: "Mas o senhor vai falar bem ou vai falar mal da FEB?". 
Acredito que a maioria dos ex-combatentes que leram a matéria da Folha sobre o despreparo dos pracinhas ("Pracinhas foram à 2ª Guerra sem preparo", Poder, 3/4) deve ter achado que ela era "uma matéria contra a FEB". 
Para o público em geral, o mesmo artigo deixou dúvidas se o esforço empreendido para essa façanha valeu ou não. Por outro lado, serviu para tirar da toca aqueles que, como eu, acreditam que esse esforço não foi em vão. 
Depois de sofrer com a guerra e de provar que o brasileiro tem fibra e coragem no campo de batalha, os ex-combatentes brasileiros, ao contrário dos ex-combatentes de outras nações, foram esquecidos e -pior- depreciados em seu próprio país. As desculpas para tal gafe são sempre as mesmas: fomos joguete nas mãos dos Estados Unidos e o brasileiro não tem memória. 
Longe de qualquer tentativa ufanista de enaltecer a participação do Brasil na Segunda Guerra, é preciso entender aquela época, avaliar o que aconteceu, como a parceria Vargas-Roosevelt, os torpedeamentos dos navios brasileiros pelos nazistas e a tentativa de incluir o Brasil no bonde da modernidade, no momento em que se desenhava a ONU e uma nova ordem mundial. 
Pano rápido. Durante seus oito anos de mandato, o ex-presidente Lula esteve por diversas vezes na Itália e não se preocupou em visitar uma única vez o solene Monumento Votivo na cidade de Pistoia, que foi erigido em honra aos 470 brasileiros que morreram em combate na guerra. Isso retrata bem o desconhecimento que o brasileiro comum tem dessa passagem importante da nossa história.
Meu pai, que foi um dos 25 mil pracinhas, pouco falava sobre seus dias no front. Os que lutaram preferiram esquecer. Nós é que não podemos nos esquecer, pois seria invalidar esse esforço. Se foram vítimas da política, dos interesses econômicos, se estavam despreparados, pouco importa. O Brasil lutou. Se foi preciso ou não, podemos discutir isso até hoje, à luz da democracia, que inclusive voltou ao Brasil depois da guerra. 
O fato é que lutamos. Muitos países que lutaram contra a tirania nazista estavam despreparados. Mas o Brasil foi lá, cruzou o Atlântico, numa verdadeira epopeia, tentando entrar a fórceps na modernidade. Só isso já seria motivo para entender o que aconteceu e validar o sacrifício de quem esteve sob fogo de metralhas e canhões nazistas. 
Voltando um pouco no tempo, o presidente americano Roosevelt prometeu à Vargas um lugar de destaque para o Brasil na ONU, o que não aconteceu. Até hoje estamos esperando uma cadeira no Conselho de Segurança, depois de mandar tropas ao Suez, ao Timor Leste e ao Haiti. Ao desprezar a história da FEB na Segunda Guerra, o Brasil vai continuar despreparado para assumir seu lugar, seja lá qual for, onde quer que seja. Viva a FEB! 

JOÃO BARONE baterista da banda "Os Paralamas do Sucesso", produziu o documentário "Um Brasileiro no Dia D" e prepara um documentário e um livro sobre a participação do Brasil na Segunda Guerra.


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Fabrício Augusto Souza Gomes






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domingo, 10 de abril de 2011

** IAB seleciona arqueólogos para projetos.

 

www.arqueologia-iab.com.br

sexta-feira, 8 de abril de 2011


INSTITUTO DE ARQUEOLOGIA BRASILEIRA ESTA CONTRATANDO ARQUEÓLOGOS PARA PESQUISAS DE CAMPO NO RIO DE JANEIRO

Atenção!
O Instituto de Arqueologia Brasileira – IAB seleciona arqueólogos para integrar equipes de pesquisas de campo em  CINCO programas de pesquisas arqueológicas no Estado do  Rio de Janeiro. O contratado iniciará imediatamente nas pesquisa de campo do Arco Metropolitano do Rio.
Requisito básico: Carteira de Habilitação categoria B
Envie seu currículo para seleção
Tel/Fax:(21) 3135-8117
Celular: (21) 71235091


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** As obras raras das bibliotecas brasileiras

 

       As obras raras das bibliotecas brasileiras


Por Maria Clara Rabelo  REVISTA ELETRÔNICA DE JORNALISMO CIENTÍFICO


Traçar um panorama das obras raras no Brasil não é uma tarefa fácil. Primeiro, pela grande quantidade de bibliotecas e arquivos espalhados pelo território nacional. Segundo, pela relevância e consistência do assunto que desperta inúmeros questionamentos, cujas respostas nem sempre são óbvias. Questões que passam pelo conceito de obra rara, por exemplo. É uma obra antiga ou uma obra difícil de ser encontrada? Nem uma coisa, nem outra. Ou, talvez, as duas. A raridade de uma obra é medida e atribuída de acordo com critérios bastante específicos que não se limitam à idade ou ao número de exemplares existentes.
Para responder a esta e a outras questões igualmente pertinentes, a rota desta reportagem passa por onze instituições nacionais, públicas e privadas, que são: Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) e Biblioteca Mário de Andrade (BMA), de São Paulo, Biblioteca Central Cesar Lattes da Universidade Estadual de Campinas (BCCL/Unicamp), Campinas; Biblioteca Central da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (BC/UFRGS), em Porto Alegre; Biblioteca Pedro Aleixo da Câmara dos Deputados, Brasília; Fundação Biblioteca Nacional (FBN), Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB), Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Real Gabinete Português de Leitura (RGPL), todas do Rio de Janeiro; Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), que fica em Recife; e Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), de Belém.
Os representantes dessas instituições são unânimes em afirmar que a "raridade" de uma obra é determinada por um conjunto de fatores. Em geral, sua classificação é baseada em critérios pré-estabelecidos pela Fundação Biblioteca Nacional, aos quais são adicionadas peculiaridades e necessidades locais, isto é, "cada instituição define como raros títulos considerados fundamentais para a preservação de sua memória", esclarece a bibliotecária Matie Nogi, da Biblioteca Pedro Aleixo.
"Todo bom livro é raro!", exclama Ana Virgínia Paz, chefe da Divisão de Obras Raras da Fundação Biblioteca Nacional (FBN) e questiona: "Quantos livros conhecemos, editados recentemente, que seriam importantes o suficiente para compor uma biblioteca no próximo século?" A autora de Que é livro raro?, cuja segunda edição vem sendo preparada, associa a definição da raridade de um livro à intenção de preservá-lo fisicamente para as próximas gerações, sem se esquecer dos critérios classificatórios já consagrados como antiguidade, produção artesanal, tiragem reduzida, importância histórica, características bibliológicas, entre outros.
Apesar de estar mais vinculado ao objeto "livro", o conceito "obra rara" não exclui periódicos, mapas, folhas volantes, cartões-postais e outros materiais impressos, pondera Rizio Bruno Sant'Ana, coordenador de Obras Raras e Especiais da Biblioteca Mário de Andrade. O autor do artigo "Critérios para a definição de obras raras" ressalta que fotografias, manuscritos, gravuras e desenhos por serem peças únicas e originais, não recebem a mesma denominação apesar de demandarem o mesmo cuidado em relação à preservação e conservação. Assim, os acervos raros são aspectos específicos e integrantes de um conjunto maior: as coleções especiais.
Para ver essas imagens em tamanho maior e outras obras das bibliotecas raras brasileiras, clique aqui


A Coleção de Obras Raras da Biblioteca Central César Lattes/Unicamp é composta, principalmente, por exemplares do século XV ao XX que integravam bibliotecas particulares de intelectuais brasileiros adquiridas por compra (Sérgio Buarque de Holanda, Alexandre Eulálio, Paulo Duarte, Peter Eisenberg) e doação (Aristides Cândido de Mello e Souza e José Albertino Rodrigues), desde 1970. Fazem parte do acervo obras de Johannes Nieuhof, Johan Nieuhofs Gedenkweerdige Brasiliaense... (1682); Jean de Lery, "Histoire d'un voyage fait en la terre du Bresil... (1585) e Histoire d'un voyage faict en la terre du Bresil... (1600); Tomás Antônio Gonzaga, Marilia de Dirceo (1792); e de Caspar van Baerle, Casparis Barlaei Rerum per octennium in Brasilia... (1647). Mas, o destaque são os três volumes de Delle navigationi et viaggi, de Giovanni Battista Ramusio (1554-59).
Segundo Marta do Val e Tereza de Carvalho, da Diretoria de Coleções Especiais e Obras Raras da Unicamp, a temática principal da coleção é a Brasiliana (séculos XVI-XIX), presente nas narrativas de viagens, cujos relatos dedicam-se à geografia, economia, política, religião, população e aos costumes do período colonial e imperial brasileiros. Em geral, tratam-se de exemplares esgotados, primeiras edições de editores renomados, além de edições especiais, clandestinas e de luxo.
Em 1969, a aquisição da biblioteca particular de Eduardo Secco Eichenberg (bibliófilo e médico) deu início à coleção de raridades da Biblioteca Central/UFRGS. Desse acervo, aproximadamente 10.000 volumes foram considerados raros, formando a Coleção Eichenberg de Obras Raras. Inaugurado, oficialmente, em 1978, o Departamento de Obras Raras abriga, em sua maioria, publicações do século XIX, principalmente edições limitadas, como: Plantes usuelles des brasiliens, de Auguste de Saint-Hilaire (1824) e Les carottes, de Honoré Daumier (1844). Há também publicações de outros períodos, como: L'histoire des choses plus memorables advenües..., de Pierre Du Jarric (1611); Origem da lingua portuguesa, de Duarte Nuñez de Lião (1606); e uma Coleção de Bíblias, à qual pertence um exemplar alemão ilustrado por Gustave Doré e considerado um dos seus melhores trabalhos, como afirma Ana Lúcia Rüdiger, coordenadora do setor.
O acervo raro da Biblioteca Pedro Aleixo vem sendo formado desde o início das atividades da Biblioteca da Câmara dos Deputados, na instalação da Assembléia Geral, Constituinte e Legislativa do Império do Brasil, no dia 17 de abril de 1823. Essa longa existência garantiu-lhe o acúmulo de uma quantidade significativa de obras, hoje consideradas raras. Em 1971, criou-se uma seção específica para o abrigo de tal coleção que é formada pelo acervo geral e pela aquisição da coleção particular do ex-deputado e jornalista Márcio Moreira Alves, explica Matie Nogi, bibliotecária responsável.
As principais raridades do acervo estão registradas em dois catálogos publicados pela Câmara, disponíveis na internet. O primeiro volume reúne "200 obras segundo critérios de antiguidade e valor histórico-social para a construção do pensamento social brasileiro e o interesse de historiadores, pesquisadores e bibliófilos". Enquanto o segundo é composto por "obras que tratam exclusivamente do Brasil, desde o século XVI até o início do século XX", como: Directorio, que se deve observar nas povoaçoens dos indios... (1758) e o Diario da viagem do Dr. Francisco José de Lacerda e Almeida pelas capitanias... (1841).
Em 1907, iniciou-se a formação do acervo da Biblioteca Mário de Andrade com a criação da primeira Biblioteca Pública Municipal de São Paulo que, anos mais tarde, incorporou o acervo da Biblioteca Pública do Estado. Em 1943, organizou-se a Seção de Obras Raras. A instituição passou a chamar-se Mário de Andrade em 1960, reunindo diversas coleções de bibliófilos e pesquisadores, compradas ou doadas, constituindo coleções que levam o nome do doador: Barão Homem de Mello, Félix Pacheco, Paulo Prado, Pirajá da Silva, Otto Maria Carpeaux, Antonio de Paula Souza, Paulo Duarte, entre outros.
É vasto e valioso o acervo raro da BMA, sendo muitas as obras que merecem destaque. Por exemplo: Vocabulário na língua brasílica (1628), Códice Costa Matoso (1749); Diabo Coxo (1864-65), de Angelo Agostini – único exemplar conhecido; Suma Teológica (1477), de Santo Antonino – publicada por Nicolau Jenson; Bíblia (1492) – em caixa de jacarandá; Crônica de Nuremberg (1493) – com 1.600 xilogravuras é considerado o maior livro ilustrado de sua época; História de César (1506), de Suetônio; e a Enciclopédia Francesa (1754), de Diderot e D'Alembert – edição original. Também pertencem à coleção encadernações em pergaminho, couro, latão, seda e com decorações em ouro; além de importantes obras do século XX, entre as quais estão as primeiras edições autografadas de Mário de Andrade ou Jorge Amado, exemplifica Rizio Bruno.
A Biblioteca Brasiliana José e Guita Mindlin, formada por José Mindlin ao longo de sua vida, iniciou-se a partir de dois acontecimentos. O primeiro, ao adquirir em um "sebo" os Discursos sobre a história universal, de Jacques Bossuet (1760), cuja antiguidade impressionou o menino de apenas treze anos de idade. O segundo, ao ser presenteado com um exemplar da História do Brasil, de Frei Vicente do Salvador, que influenciou a formação de sua biblioteca na temática Brasiliana.
"São muitas as obras raras (...), versando sobre os mais variados assuntos", afirma a curadora da Brasiliana Mindlin, Cristina Antunes. Entre elas estão: Hans Staden – primeira edição ilustrada com xilogravuras sobre os índios brasileiros; Warhafitige Historia vnd beschreibung... (1557); Histoire d'un voyage fait en la terre du Bresil, de Jean de Léry (1578); os Sermoens do P. Antonio Vieira, (1679-1748); Explicacion de el cathecismo en lengua guarani, de Nicolas Yapuguay (1724); O Guarany, de José de Alencar (1857) – primeira edição; Marilia de Dirceo, de Tomás Antônio Gonzaga (1810) – primeira edição brasileira, mais rara do que a primeira edição portuguesa (1792); Raça, de Guilherme de Almeida (1925) – tiragem especial.
Herança de Portugal
Criada em 1946, a partir de um decreto presidencial, a Seção de Livros Raros da Fundação Biblioteca Nacional (FBN), hoje chamada Divisão de Obras Raras (DOR), foi formada a partir do acervo geral da biblioteca, seguindo os critérios de raridade e preciosidade. A maior parte dos livros selecionados é proveniente da Real Bibliotheca Portuguesa (século XVIII). Tal acervo preenche mais de dois mil metros lineares de itens em estantes, gavetas e cofres, distribuídos numa área de 520 m², cujo espaço leva o nome de seu patrono e doador da valiosa coleção de incunábulos – livros impressos nos 50 primeiros anos após a invenção da imprensa –, edições príncipes, camonianas, além de outros impressos e manuscritos relativos ao período colonial: Antônio Marques, um bibliófilo fluminense.
Chefe da DOR/FBN, Ana Virgínia, afirma que a divisão é "guardiã de uma coleção múltipla que cresce ininterruptamente, devido às doações de beneméritos e remanejamentos de outras áreas do acervo", possuindo valiosos itens entre os quais se destacam: títulos impressos (século XV-XVIII) – oriundos de tipografias de todas as nações; a coleção Brasiliana – livros sobre o Brasil, impressos ou gravados do século XVI ao XIX, e os livros de autores brasileiros impressos ou gravados no exterior até 1808; a coleção de incunábulos brasileiros (século XIX), ou seja, os primeiros livros impressos no país; exemplares de caráter memorial, por sua importância intelectual e histórica; exemplares de caráter memorial, pela riqueza dos materiais utilizados (couro, pergaminho, madeira, papel de trapo e de madeira, seda, veludo e tafetá).
Segundo Dilza Bastos, chefe do Serviço de Biblioteca da Fundação Casa de Rui Barbosa, a coleção de obras raras da instituição teve início com a Biblioteca Rui Barbosa, que "foi constituída pelo próprio ao longo de sua vida, reunindo 23 mil títulos em 37 mil volumes, sobre os mais variados ramos do conhecimento", com destaque para as obras jurídicas. Ainda integram o Serviço a Biblioteca Infanto-juvenil Maria Mazzetti e a Biblioteca São Clemente que, por sua vez, está em constante desenvolvimento, abrigando diversas coleções particulares adquiridas, em sua maioria, por meio de doação, além das raridades avulsas doadas ou compradas pela própria instituição.
Seletiva e rica em obras de referência, a Biblioteca Rui Barbosa possui várias edições príncipes, primitivas ou originais. Alguns de seus destaques são: Divina Comédia, de Dante Alighieri (1481) – editado por Landino; La vie de Notre-Seigneur Jésus Christ, de Tissot (1896-97); e Crônica de D. João I, de Fernão Lopes (1644) – primeira edição. Além de diversas outras obras, que deixam "evidente que Rui Barbosa buscava a fonte original em seus estudos e produção literária", afirma Bastos.
A Seção de Obras Raras A. Overmeer, da Biblioteca de Ciências Biomédicas (Fiocruz), possui em seu acervo – que se estende do século XVII ao XIX – temas relativos às diversas áreas do conhecimento, apesar da ênfase em ciências biológicas, medicina e história natural. Em sua formação, Oswaldo Cruz contou com o apoio do cientista Arthur Neiva que selecionou títulos de história natural e "adquiriu obras consideradas raras ou valiosas, não só por seu conteúdo e valor intrínseco, como por sua antiguidade", explica Jeorgina Rodrigues, bibliotecária responsável pela seção.

Entre suas raridades, destacam-se: Historia Naturalis Brasiliae, de Willem Piso e Georg Marggraf (1648) – primeiro estudo da medicina tropical; Experimenta circa generation insectorum, de Francesco Redi (1671) – um dos fundadores da biologia experimental; Systema Entomologiae, sistens..., de Johann C. Fabricius (1775); Estudos hematológicos no impaludismo, de Carlos Chagas (1903) – tese; A veiculação microbiana pelas águas, Oswaldo Cruz (1893) – tese. Além de periódicos científicos nacionais e estrangeiros, como: Gazeta Médica da Bahia (1876-1972); Anais da Academia Nacional de Medicina do Rio de Janeiro (desde 1885); Memórias do Instituto Oswaldo Cruz (desde 1909); Annales de Chimie et de Physique (1789-1913); Annalen der Physick (1790-1983); e Proceedings of the Royal Society of London (1800-1969).
Regiões Norte e Nordeste

O acervo raro da Fundaj foi "constituído, basicamente, por doação", afirma a bibliotecária Lúcia Gaspar. A maioria das obras é proveniente do extinto Museu do Açúcar, e foram incorporadas ao Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, em 1977. Tal coleção, cujos exemplares mais antigos são do século XVII, é composta de livros, folhetos e periódicos de temas diversos, como: as obras de viajantes (século XIX); os aproximados 2.800 folhetos de cordel; as Séries Brasiliana e Documentos Brasileiros; periódicos nacionais e estrangeiros (século XIX-XX); além do Arquivo Joaquim Nabuco (doado pela família do abolicionista) que recebeu o Certificado de Registro Nacional do Brasil do Programa Memória do Mundo (MOW), da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) (2008).
Entre os itens do referido acervo – que possui tiragens reduzidas, primeiras edições, obras esgotadas e exemplares com anotações manuscritas – destacam-se: Medicina Brasiliensi, de Guilielm Pisonis (1648); Castrioto Lusitano, de Frei Raphael de Jesus (1679); O Fazendeiro do Brazil..., de Frei José M. da C. Velloso (1798-1806); English Constitution, de Bagehot (18--?) – exemplar que pertenceu a Joaquim Nabuco, com anotações de próprio punho; Henry George: nacionalização do solo..., de Joaquim Nabuco (1884) – um dos poucos exemplares encontrados para consulta; Memórias da viagem de SS. Magestades Imperiais..., do Imperador do Brasil Pedro II (1862); Travels in Brazil, de Henry Koster (1816); A history of the Brazil..., de James Henderson (1821).
No Pará, as aquisições do zoólogo Emílio Goeldi, as doações de ilustres e a permuta entre o Museu Paraense de História Natural e Ethnographia e instituições nacionais e internacionais formaram o acervo raro da Biblioteca Domingos Soares Ferreira Penna/MPEG. De acordo com Aldeídes Camarinha e Berenice Bacelar – respectivamente, coordenadora do Centro de Informação e Documentação (CID) e curadora da coleção, as áreas da botânica e zoologia são contempladas com importantes estudos sistemáticos e documentos relativos às viagens e explorações científicas e históricas na Amazônia, constituindo-se um acervo expressivo e de referência para estudos clássicos científicos acerca da região.
Entre os seus 3000 volumes, dos quais 276 são in-fólios, destacam-se: Delle navigationi et viaggi, de Giovanni Battista Ramusio (1554-74); Relation Abrégée d' um Voyage..., de Charles Marie de La Condamine (1745); Relacion histórica del Viage... e Observaciones Astronômica y Phisicas, de D. Jorge Juan e D. Antonio de Ulloa (1748); Nouveau recueil de planches coloriées..., de C. J. Temminck (1838); Histoire naturelle des oiseaux ...; de George L. L. Buffonde, (1771-86); Monograph of the Ramphastidae or Family of Toucans, de John Gould (1854) – 51 estampas coloridas; além da publicação científica do Museu Emílio Goeldi até 1945.
As raridades do Real Gabinete Português de Leitura foram reunidas através da compra ou da doação de coleções por particulares, como a de João do Rio, exemplifica Vera de Almeida. A obra mais antiga que a instituição possui é De bello civili, de Marco Aneu Lucano (1502). Outros destaques ficam sob a responsabilidade das duas edições de Os Lusíadas, de Luiz de Camões (1572 e 1670), respectivamente, a primeira edição e um exemplar autografado por Gago Coutinho; Ordenações de dom Manuel (1520); Vozes saudosas, da eloqüência... (1736) e Voz sagrada, politica, rhetorica e metrica... (1748), de Padre Antonio Vieira – primeiras edições de seus sermões; e dos livros autografados por Euclides da Cunha, Machado de Assis, Joaquim Nabuco, entre outros.
Certamente outros exemplares importantes devem figurar distintas bibliotecas brasileiras, mas tomando por base as que foram consultadas nesta reportagem, é possível ver a variedade dos acervos brasileiros e a importância que tem sido dada a eles. Esses livros e documentos atravessaram a história e o mundo até chegarem aqui, e merecem esse lugar de destaque.
Leia também a reportagem Conservação, restauro e espaço

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